segunda-feira, 28 de Julho de 2014

100 anos.

A "grande guerra" 1914-1918 começou há precisamente 100 anos.
Que a memória não se apague, que a carnificina não se repita.



sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Mas qual "skate", pá?

A minha costela de "velho do Restelo" não aguenta. Farto-me de pregar contra o surf que se transformou em skate aquático (ver aqui e aqui), mas a nova tendência é essa mesmo: o surf-progressivo está-se nas tintas para a essência da onda; quer usá-la para saltos (como se fosse um halfpipe) e slides (como se nela houvesse corrimões), tudo o resto são velharias.

Acham que exagero?
Printscreens desta semana:



quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Hora do jantar, em três actos.

Ontem fiz o meu primeiro programa a dois com a Catarina, a minha filha mais velha.

# 1º acto

Jantámos às horas de um lanche tardio e quando eram oito, que é a hora habitual do jantar lá em casa, estávamos de rabo para o ar nas poças da Praia da Parede, aproveitando os últimos raios de sol, o silêncio da praia e a maré vazia da nossa predilecção. Quando escrevo vazia quero mesmo dizer vazia, porque o mar estava tão recuado, as suas lajes tão expostas, que mais parecia ter-se dado ali, naquele pedaço de paraíso da linha do Estoril, um fenómeno para lá do natural.

Estávamos calçados e por isso a laje da Praia da Parede não nos feriu os pés. Avançámos até onde foi possível e ali, de frente para as ondas - que eram pequenas mas perfeitas - gozámos o silêncio de um fim de dia absolutamente esmagador.




Haverá lugar mais bonito para dizer adeus ao Sol?
Não conheço.

# 2º acto

Depois de uma breve passagem pelo centro da Parede fomos para a SMUP, com o objectivo de assistir às "Contatinas" do Luís Correia Carmelo. Como chegámos cedo aproveitámos a esplanada da Sociedade e tivemos tempo para desfrutar da área de jogos que alguém com boas ideias ali criou. Munidos de duas raquetas e uma pena usámos o salão da SMUP para jogar Badminton. Foi maravilhoso, divertido e, estou em querer, o primeiro de muitos serões na SMUP, de raqueta e pena na mão.

# 3º acto

Eram quase vinte e duas quando o Luís Correia Carmelo contou o primeiro dos muitos contos que, em conjunto com o Nuno Morão, partilhou com uma pequena plateia, aconchegada no palco do salão da Sociedade. O espectáculo foi gravado e por isso tenho esperança de o poder rever e oferecer a amigos e familiares. Foi das coisas mais bonitas que vi em toda a minha vida. Lembrei-me, a dado momento, da noite em que vi "O que diz Molero", no Teatro Villaret, de mão dada com a Célia. Quatorze anos mais tarde ali estava eu de mão dada com a Catarina, uma menina que era ainda sonho quando vi a peça de Dinis Machado.


 [fotografia: smup]


O Luís disse - por mais de uma vez - que "o tempo passou", que "passa sempre, na vida como nos contos". Mas eu senti-o parado, como se fosse aquele palco o centro de todo o Cosmos durante a hora que, no resto do mundo conhecido, andou e fez os relógios pularem um número.

Há dias que ficam para sempre guardados em nós.
O de ontem pertence aos dias que não esquecerei mais.

Guerra e economia.

A propósito da situação na Palestina tenho lido muitos textos em que a guerra aparece apresentada como o motor da economia, uma táctica para potenciar ganhos e lucros. Esta afirmação que é, em certos contextos e de forma limitada, verdadeira. Em todo o caso são as condições materiais - e a disputa que estas arrastam - que estão na base da guerra. A economia precede a guerra, é sobretudo causa, primeiramente causa, e não tanto (ou não principalmente) consequência desta. A guerra afecta a economia, altera as condições do seu funcionamento, favorece-a (do ponto de vista daqueles que beneficiam com a carnificina)... mas a guerra não está antes da economia nem surge a montante desta.

Que pensadores fortemente influenciados pelo idealismo filosófico o afirmem é coisa perfeitamente normal. Que uma parte significativa das pessoas comuns o afirmem também, é coisa compreensível numa sociedade que fez do pensamento idealista - aquele que faz preceder a ideia face à condição que a cria - uma formula dogmática e absolutista. Mas e nós, marxistas, embarcamos na inversão da ordem dos factores?

quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Hora do almoço, em três actos.

#1
Hoje fui almoçar ao jardim aqui do bairro onde trabalho. A manhã foi saturante e já não me sentava há duas mãos cheias de meses no banco que costumo usar para ler e comer ao ar livro. No banco de jardim em frente ao "meu" estava um sem abrigo que também comia o que conseguiu arranjar para o almoço. Eu com a minha marmita, ele com a dele, um em frente ao outro. Vidas tão diferente e ao mesmo tempo tão próximas, que se cruzaram durante vinte minutos num jardim do bairro de Alvalade.

#2
Aproveitei o "passeio" e fui ler à Biblioteca dos Coruchéus. Tic-tac-tic-tac, o relógio sempre a contar. Perguntei pelo "Eu espero" mas naquela biblioteca não existe nenhum exemplar. Puxei outros dois e foi assim que gastei os últimos 20 minutos da minha hora do almoço. Li o "Siga a Seta!" (Isabel Minhós Martins, com ilustrações do André Sandoval), do Planeta Tangerina, e o "Sabes onde é que os teus pais se conheceram" (Maria Inês de Almeida, com ilustrações Paulo Galindro), da Booksmile. A qualidade dos livros ditos infantis surpreende-me a cada novo título que fico a conhecer. Aconselho-os ambos, muito.

#3
Maré vazia.
Saí da biblioteca e no caminho para o escritório senti-me como um animal de maré preso na areia húmida mas fustigada pelo sol na zona entre marés. A maré vai subir, é de lei. Mas até subir o sol vai queimar e não existe outra opção que não passe pela paciência e a resiliência. Não adianta ficar ansioso; a ansiedade de resto não reside no acontecimento mas na forma com o vivemos; o acontecimento, neste escala a que me refiro, é quase sempre neutro. À maré vazia segue-se sempre novo encher, e ao encher novo vazar. E há mais marés do que marinheiros.
Maré cheia.

Contatinas, hoje na SMUP [*]



[mais informações]
[*]

terça-feira, 22 de Julho de 2014

Curren, o mestre.

Já dediquei uns quantos posts ao Tom Curren neste 10mil insurrectos (aqui, aqui e aqui, por exemplo). Este é apenas mais um de muitos que estão para vir, temo bem.

Curren é o meu surfista preferido. Sempre foi. Um atleta de excepção, três vezes campeão do mundo, que soube abandonar a competição no momento certo e dedicar todo o seu tempo aos apelos da alma. Trocou os Estados Unidos e a confusão do circuito mundial pela costa do País Basco (chamado "francês") e ali passou a viver para a música, a família e o surf não competitivo.

As suas ocasionais aparições em competições são sempre muito aguardadas e Curren nunca desilude. Em meados dos anos 90 lembro-me de um heat que disputou em Biarritz ou Hossegor contra o australiano Luke Egan. Curren apresentou-se no heat com uma "fish tail" minúscula e velha que havia comprado em segunda mão por piada. No final ganhou, para grande embaraço de Egan.

No passado fim-de-semana Curren (que já tem 50 anos...) foi a Jeffrey's Bay, na África do Sul, para disputar um heat contra Mark Occhilupo. "Occy" apareceu motivado mas completamente fora de forma e excesso de peso. Curren competiu consigo mesmo, contra os limites impostos pela idade e pelos anos afastado dos grandes palcos do surf mundial. O que aconteceu ficará para a história competitiva do surf: a meio do heat Curren apanha uma bomba em Supertubes e depois de duas rasgadas que apanharam toda a parede da onda, levantando água como já pouco se vê em campeonatos, encaixa num tubo perfeito, longo e profundo. A nota 10 (em 10 pontos possíveis) é o pálido reflexo de uma onda que não me canso de ver e rever.




Curren e J-Bay têm uma relação especial. De entre os surfistas daquela geração apenas Shaun Tompson se pode comparar com o mestre na velha arte de desenhar movimentos fluídos, naturais e de profunda comunhão com a mais bonita e mítica direita do mundo. Ora vejam Curren em JBay, nos tempos em que dominava o surf mundial:




No sábado Curren deu espectáculo. Fê-lo por si próprio, naturalmente. Em todo o caso espero que aqueles que na praia, ou através do streaming, acompanharam o momento épico a que se refere este post possam reflectir sobre a evolução do surf em todas as suas dimensões, sobretudo no que se refere ao processo de substituição do surf fluído que Curren representa como ninguém pelo surf "progressivo" que transforma as ondas em rampas de saltos e os surfistas em skaters aquáticos. Há espaço para todos os estilos dentro de água, nada contra. O problema começa a existir quando um estilo extermina quase por completo o outro, e o surf ganha uma agressividade que o afasta perigosamente da sua essência fundamental.

Sabe bem ver e rever Curren, o mestre.

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Maré vazia.

A zona entre marés - ou seja, aquele pedaço de terra que ora está coberto de água, ora descoberto por efeito da baixa da maré - chama-se "zona intertidal". Acontece que "intertidal" é um anglicismo que remete para "tide" (maré) e eu prefiro chamar-lhe "zona entre marés".

A zona entre marés é uma metáfora para muitos e um enorme jardim zoo-botânico marinho para outros, com a vantagem dos exemplares estarem no seu meio, em liberdade e nos seus afazeres diários. Para mim é as duas coisas combinadas. No zona entre marés não há leões enfastiados ao sol mas há caranguejos atarefados; não há elefantes deprimidos que recolhem moedas com a tromba mas há conquilhas escondidas de várias cores e tamanhos; não há primatas enjaulados mas antes estrelas do mar velozes; não há ursos no fosso, apenas peixes pequenos que aguardam a maré alta para regressar a casa; não há aves no poleiro mas há eremitas na concha e conchas desabitadas. Há polvos, lapas e toda a sorte de plantas marinhas. A zona entre marés é o habitat natural da descoberta.

Este Verão andamos muito voltados para ela. O H., por exemplo, passa todo o tempo a recolher pedras e pedrinhas, conchas - com e sem habitante -, estrelas do mar e, claro está, caranguejos. Na zona entre marés há sempre coisas novas porque quando a maré sobe as poças renovam-se, a areia dança e muda de posição, as algas dão à costa (e às vezes as alforrecas também), os habitantes do subsolo movimentam-se. O universo move-se, e nele todos nos movemos também (a altíssima velocidade), mesmo quando pensamos estar parados. A impermanência e a dialéctica estão tão bem explicadas na simplicidade do ecossistema entre marés que são dispensados manuais escolares e outros compêndios. Se ainda não o compreenderam aproveitem o Verão.


[rabos para o ar na zona entra marés... não há outra maneira de o fazer]

[excerto do livro "Lá fora", do Planeta Tangerina, muito aconselhado a jovens - e menos jovens - exploradores dos ecossistemas que normalmente ignoramos... imagem: site do Planeta Tangerina]

[maria farinha, na Manta Rota]

[caranguejo verde escondido nas algas de uma poça de maré, na Praia da Parede]

domingo, 20 de Julho de 2014

Helioterapia na Parede.

Esta manhã fomos fazer helioterapia para a praia da Parede, um lugar mítico e bem frequentado pelo povo da zona e arredores, onde algumas tradições ainda são o que foram no passado (como aliás se pode verificar pela comparação da primeira fotografia que vos deixo com estas outras, publicadas no Tubus Eternus).

Na Parede respira-se outro ar. Deve ser do iodo...



[o H., sempre em busca de caranguejos... conseguem vê-lo?]


 [a praga do SUP, que parece ter invadido a Parede em dias de ondas minorcas]

 [a canalha brincando na areia e mantendo respeitável distância relativamente à laje afiada, expoente máximo da helioterapia paredense...]

sábado, 19 de Julho de 2014

Praia de Algés

A terra da minha vida - Algés - tem uma praia. Trata-se de uma praia de rio, ali perto da Foz do Tejo, que já foi célebre pelas melhores razões e mais tarde pelas piores razões. Uma praia que tem história e estórias, estando por exemplo ligada à revolta dos marinheiros de 1936.


 [o NRP Afonso de Albuquerque encalhado em Algés, depois da derrota da Revolta de 1936]



Nos dias que correm a praia de Algés é um lugar esquecido pelas gentes do lugar com alma e vida própria que se vai transformando, lenta e progressivamente, num dormitório repleto de lojas fechadas e ruas despidas de pessoas fora das horas de ponta. É uma pena.

Acontece que este domingo uma parte da população de Algés junta-se para limpar a praia, uma vez mais. Gente comum, que poderia dedicar o domingo soalheiro ao descanso mas que prefere ocupar-se da praia da sua terra. Se isto não é bonito, não sei o que é bonito na relação do homem com o lugar que o alberga.

A limpeza far-se-á depois das 16h00 e é organizada pela Assembleia Popular de Algés, um grupo de pessoas que tem mexido com a vida deste lugar. Bem hajam.