sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

"Exemplar".

O que espanta nos resultados do referendo escocês foi a escassa diferença entre "Sim" e "Não". O que espanta é a extraordinária mobilização em torno da ideia e da ambição de independência, quando durante a campanha eleitoral todos os poderes do mundo - a União Europeia, os Estados Unidos, a NATO, o FMI, a banca, o governo inglês e até a rainha lá do burgo - ingeriram de forma clara no processo. Um processo "exemplar", nas palavras de Teresa de Sousa, a eminência que opina sobre assuntos internacionais e europeus na rádio pública. De resto ouvi esta manhã na Antena1 que "os mercados respiraram de alívio com o resultado do referendo". Alívio para os mercados, pesadelo para os povos.

A Escócia não se integrou de livre vontade no "Reino Unido", esse bizarro anacronismo que permanece como uma lembrança do vergonhoso passado colonial das potências europeias por esse mundo fora. Foi "integrada" à força de aço e chumbo, "aculturada" e submetida a um processo de progressiva dependência face a Londres e ao poder económico e financeiro inglês. Não admira pois que os argumentos do "Não" fossem todos "pragmáticos" e de oportunidade, polvilhados de medo e ameaça. Os princípios e os valores não quiseram nada com a campanha unionista.

O resultado do referendo de ontem foi para muitos uma desilusão, mas na verdade nunca me pareceu possível outro desfecho. A independência fica adiada, por hora. Sublinho: adiada.




[imagem]

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Who wants to live forever?

Na entrevista que o Afonso Cruz concede à revista Ler o autor refere-se por diversas vezes, de formas diferentes, à ideia da urgência de viver, ligando-a ao efémero e à permanente incerteza que o homem tem relativamente ao seu próprio destino.

A entrevista é belíssima (mérito também para Ana Sousa Dias) e vale mesmo a pena ser lida.

A dado passo refere o Afonso Cruz que "as pessoas acima de tudo tentam ser felizes e, se tiverem tempo, pensam em filosofia". Tem toda a razão, digo eu. A noção de tempo como bem escasso ("e, se tiverem tempo...") é um dos elementos da conversa e das voltas que vai dando em torno da vida e morte.

Li a entrevista precisamente num período dos meus dias em que uma canção do passado não me sai da cabeça. Refiro-me a "Who wants to live forever", um tema dos Queen criado por Brian May que foi utilizado e celebrizado pelo filme "Highlander" (de 1986), conhecido entre nós como "Duelo Imortal".

Vi o filme mais vezes do que seria razoável, conheço todos os diálogos e o brilhante enquadramento da canção na cena em que Connor MacLeod se despede da sua esposa, Heather. "Who wants to live forever? Who wants to live forever? Who dares to love forever? When love must die...".

O tema da imortalidade por oposição à precariedade da vida humana é especialmente explorado na belíssima obra de JRR Tolkien e recordei textos do Silmarillion ao ler a entrevista que motivou este post.

Conclusão: as entrevistas são como as cerejas, pelo menos na cabeça deste leitor.


terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Tempos modernos.

Acordar as 6h30, tomar banho, fazer a marmita e o lanche, dar-lhes o pequeno almoço, mudar a fralda e vestir o H., sair a correr para o trabalho; 45 minutos nos transportes; trabalhar 9 horas quase seguidas, com 20 minutos para almoçar em pé, numa "cozinha" sem janelas nem mesas nem cadeiras; sair às 18h00 disparado para as escolas; chegar à primeira pelas 18h40 e à segunda pelas 19h00; voltar a casa e começar a lavar a loiça do pequeno almoço; dar banhos, fazer o jantar, achar que ainda vou ter 20 minutos para brincar com eles; terminar de fazer o jantar, pôr a mesa, jantar com o mais pequeno cheio de sono e a resvalar para a birra; acabar de jantar, levantar a mesa e arrumar a cozinha. Às 21h55 parar, por fim. Daqui a nada vou para a cama, que amanhã às 6h30 toca o despertador.



[imagem do filme "Tempos Modernos", de Charlie Chaplin]

35 anos de SNS, filho da Revolução de Abril

Ontem foi dia de António Arnaut nos telejornais. Arnaut é, em mediatiquez, "o pai do SNS", título que o eleva aos píncaros do prestígio junto de uma imensidão de gente que nunca se deu ao trabalho de conceder ao assunto meia-dúzia de minutos.

E por isso é se calhar pertinente lembrar que o SNS não é uma criação de Arnaut. O SNS não nasceu por inspiração de um homem, não foi criado nem mantido de uma alma apenas. Ele é o resultado de um processo que teve na Revolução de Abril o seu momento inicial. O SNS é filho da Revolução, deste povo e dos profissionais - em sentido lato, não me refiro apenas a médicos e enfermeiros - do sistema público de saúde em Portugal.

Que enquanto responsável político, no exercício das suas funções, Arnaut tenha dado um contributo para uma determinada estruturação do SNS é coisa que a história regista, que não se pode nem deve apagar. Arnaut foi membro do II Governo Provisório (aquele do PS com o CDS) com a pasta dos assuntos sociais, à época aquela que incluía a saúde. O SNS nasceu cerca de um ano depois, em 1979, num formato que naturalmente está ligado aos responsáveis políticos com responsabilidade executivas naquela época. Se o governo em funções não fosse PS/CDS - se fosse  por exemplo de "esquerda" - o SNS não teria deixado de nascer embora fosse expectável que esse nascimento ocorresse em moldes distintos.

A designação de "pai do SNS" é um daqueles chavões que o processo de simplificação da realidade, tão ao gosto dos media, insere à martelada no discurso público. Se nos deixamos levar por ele é coisa que nos cabe decidir conscientemente.

O SNS é filho de Abril e dos trabalhadores que o construíram e constroem todos os dias.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Ler.

Devo ter comprado a revista "Ler" umas duas ou três vezes. A revista é cara e sempre que penso em comprá-la chego à conclusão de que, pelos mesmos 5 ou 6 euros, vou buscar três ou quatro livros de bolso ao alfarrabista [na verdade sou capaz de arranjar dez livros de bolso de grandes autores por 5 euros, que é uma coisa inacreditável que mas vos asseguro verdadeira].

Hoje passei pela banca e na capa da "Ler" li duas palavras mágicas. Dois nomes: Afonso Cruz.




Eu creio que já aqui escrevi o que penso sobre a obra do Afonso Cruz. O seu "A boneca de Kokoschka" terá sido o melhor livro que li de um autor de língua portuguesa desde que parei de ler Saramago à bruta. "O cultivo das flores de plástico", por exemplo, foi durante este ano de 2014 o texto mais bonito que me passou pela alma, e "Os livros que devoraram o meu pai" proporcionaram-me um momento inesquecível no metro de Lisboa.

Quando me apercebo de que o Afonso Cruz deu uma entrevista, ou escreveu um texto (na Bang! ou no Jornal de Letras, por exemplo), esforço-me para arranjar a publicação em causa, e em regra acabo por guardar o recorte. Há textos de uma página que valem bem mais a pena do que bíblias de milhões de caracteres, vazias de conteúdo e arte.

Se vou comprar a "Ler" não sei. Mas se puderem - se seis euros não vos fizer mossa - comprem. O Afonso Cruz tem coisas para dizer, num mundo onde quem mais se ouve, quem mais se lê, é gente que quanto mais fala (ou escreve) menos diz.

domingo, 7 de Setembro de 2014

Fergal Smith.

A pacatez da vida de Fergal Smith, perdido num ermo com ondas lá para os lados da Ilha Verde, continua. Há vidas assim. Tranquilidade, terra e mar, surf e transição.


Stranger than fiction.

O disco "Stranger than fiction", dos grandes Bad Religion, completa nos dias que correm 20 anos. Não foi meu primeiro disco da banda - esse foi o "Against the grain", que emprestei e nunca mais vi, e que comprei no centro comercial das Amoreiras no início dos anos 90 - mas foi sem dúvida a mais intensa experiência de punk-rock que me passou pelos ouvidos, talvez a par de "The grey race", de 1996.




Até ouvir canções como "Incomplete" ou "The handshake" os Bad Religion eram para mim apenas banda sonora de filmes de surf ou skate. A sua música encaixava (e ainda encaixa) de forma brilhante em cenas de aéreos e acrobacias nas ondas de um Christian Fletcher, ou no street alucionado de skaters desconhecidos patrocinados por pequenas lojas espalhadas pela Califórnia.

Depois de  "Stranger than fiction" tudo mudou para mim no que ao punk-rock californiano diz respeito. Passei a distinguir o trigo do joio, e já nem sequer a etiqueta Epitaph - fundada por membros dos Bad Religion, se a memória não me falha - era para mim garantia de qualidade. "Stranger than fiction" e os discos dos Bad Religion em geral abriram as portas do sucesso comercial a muitas bandas hardcore californianas, mas elevaram simultaneamente a fasquia e a exigência de qualidade por parte dos miúdos - como eu - que os seguiam quase religiosamente. Deixou de bastar ter um bom single.

Vinte anos é muito tempo na vida de uma banda. É muito tempo na vida de um miúdo que deixou de o ser. O disco em todo o caso não envelheceu um único dia, continua cem por centro actual no som e nas letras. Duvidam?


sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

José González, Live on Desmet Studio's.

O José González não é o meu "cantautor" preferido. Gosto muito de o ouvir, mas não o oiço todos os dias. Penso que me cansaria rapidamente da sua música se o fizesse. Para trabalhar prefiro a infindável lista de discos post-rock que tenho entre os meus preferidos, e nos meus tempos livres acabo por ouvir outro estilo de música, prog sobretudo.

Acontece porém que de tempos a tempos lembro-me de um concerto do José González que alguma alma caridosa publicou na íntegra no Youtube. O nome do vídeo é "José González - Live on Desmet Studio's Amsterdam (September 18, 2007)". Hoje ouvi-o uma vez mais de fio a pavio e durante uma hora foi o meu concerto preferido do meu artista preferido. Depois as palmas fecharam o espectáculo, o vídeo acabou e o Steven Wilson regressou ao topo das minhas preferências musicais. Fazer o que José González me fez esta tarde não é fácil...

Já publiquei o link um par de vezes no 10 mil insurrectos, mas para quem ainda não conhece aqui fica uma vez mais o som de um concerto maravilhoso, para tornar mais feliz o fim-de-semana que está a chegar. Bom descanso, boa descontracção.


Cinco notas, a propósito de uma reportagem da RT.

Costumo ver a RT depois do jantar. Não vejo muita televisão mas sempre que possível vou acompanhando a RT, sobretudo para perceber a perspectiva russa sobre os assuntos da actualidade internacional.

Ontem apanhei no noticiário das 21h00 (hora portuguesa) uma reportagem sobre a greve dos trabalhadores do sector da restauração "fast food". Primeira nota: uma greve que envolve milhares de trabalhadores em 150 cidades norte-americanas e que conta com pelo menos duas dezenas de trabalhadores detidos em Nova Iorque (desconheço número de detenções ao nível federal) está a passar completamente ao lado dos nossos livres órgãos de comunicação social.

Durante a referida reportagem, a RT contou a história de Maria Fernandes, uma emigrante portuguesa com 32 anos que no final de Agosto foi encontrada morta dentro do carro. Maria Fernandes tinha três empregos, o que não lhe bastava para ir além da sobrevivência no mais rico dos países do mundo. Pensa-se que terá morrido enquanto dormia entre turnos, "vítima da inalação de gases tóxicos". Segunda nota: a morte de Maria Fernandes mereceu escassa atenção por parte da imprensa nacional e foi, tanto quanto me pude aperceber, praticamente ignorada pelas televisões.

A percepção que vamos criando acerca do mundo em que vivemos está em larga medida alicerçada na selecção e tratamento de notícias que os órgãos de comunicação social "de referência" fazem. Quem os controla, quem controla o que é notícia, controla em larga medida a percepção que o comum dos mortais tem sobre os grandes, médios e até pequenos temas da actualidade. Quantos de nós sabiam/sabem que nos Estados Unidos da América os trabalhadores do sector da "fast food" estão em greve por melhores salários e pela defesa de direitos sindicais básicos? Quando de nós sabiam/sabem que há trabalhadores em greve detidos pelas autoridades norte-americanas? Terceira nota: a realidade é incomparavelmente mais vasta, diversa e complicada do que o seu pálido e manipulado reflexo trabalhado e serviço "pronto a comer" pelas televisões.

Em Maio passado os trabalhadores do mesmo sector haviam feito greve e pelo menos 100 manifestantes foram detidos junto à sede da McDonalds's, em Oak Brook, no estado de Illinois. Sabiam? Quarta nota: não basta responder "não, não sabia"... é preciso questionar as razões pelas quais as lutas sindicais, os protestos contra um sistema de espoliação laboral, são assuntos raramente tratados pelas televisões.

Em resposta aos manifestantes, representantes das milionárias corporações que dominam o sector da alimentação de plástico referem que estas empresas têm criado postos de trabalho num contexto de recessão económica, e que os seus trabalhadores deveriam ter isso em consideração. Quinta nota: trata-se de um discurso recorrente, e que em Portugal pegou de estaca: a qualidade do emprego foi varrida do mapa e substituída pelo princípio da simples existência do posto de trabalho; a narrativa oficial centra as suas atenções - quando lhe interessa, naturalmente - nos números do "emprego", escondendo que é a própria noção de emprego (durante tanto tempo demonizada por aqueles que a confrontavam com o aparentemente antagónico conceito de trabalho) que se encontra em risco de extinção.

Eu vejo a RT. E leio o Avante!.
Se só visse a SIC Notícias e só lesse o Expresso permanecia ignorante face ao mundo para lá da narrativa oficial da Matriz.

quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

Educação (com E completo).

O Miguel Costa tem feito puro serviço público no Indiscente. Desta vez partilha quatorze obras quatorze "sobre os caminhos para a transformação da escola em espaços de aprendizagem, a criação de comunidades educativas e muito mais". Tudo disponível aqui.

Obrigado, Miguel.