quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

Among the Thugs

Este fulano que vos escreve nunca andou à tareia. Nunca levou pancada nem nunca deu pancada. Acho que é uma sorte que tenho, talvez alimentada por uma predisposição para me afastar de tudo o que me parece violência desnecessária e injustificada. Curiosamente sou fã de boxe (mas não de outros desportos de combate), que é uma coisa que não compreendo em mim.

Quando andava na faculdade e fui obrigado a seleccionar um tema para a monografia final de curso não hesitei e propus ao orientador um trabalho de campo em torno dos mecanismos psicológicos que caracterizam a relação de pertença dos membros das claques desportivas. A coisa soava a sociologia - e até antropologia - por todo o lado mas ciente disso acrescentei que se tratava de uma análise individualizada: propunha-me investigar quais os aspectos intra-individuais que estavam (estão...) na base da adesão dos membros das claques desportivas a estes grupos (que estão e são organizados, formal ou informalmente) com características tão particulares. Interessava-me sobretudo os rituais e os incidentes envolvendo violência (não raras vezes arbitrária) ocorridos dentro ou fora do grupo.

O professor abanou a cabeça e lá foi dizendo que me devia concentrar numa qualquer escala ou ideia de validação de instrumentos de investigação estrangeiros para o contexto português. Acabei por trabalhar mecanismos específicos do processo de negociação, em particular a elasticidade dos negociadores no que se refere às concessões.

A ideia de estudar as claques nunca me abandonou. Tal como uma investigação de fundo sobre o chamado "localismo" no contexto do surf e do bodyboard em Portugal. São ideias que estão na gaveta e que lá permanecerão certamente por muitos e bons anos. Seja como for vou lendo o que posso sobre o assunto, ou os assuntos.

Hoje iniciei "Entre os Vândalos - o Futebol e a Violência", de Bill Buford. O título original é "Among the Thugs: The Experience, and the Seduction, of Crowd Violence" e salvo melhor opinião dá-me ideia de "thug" é muito mais sinónimo de "rufia" do que de "vândalo".

O livro é interessante embora não seja propriamente uma investigação académica sobre o fenómeno. Também tem quase 25 anos (a primeira edição é de 1990) o que pode gerar algumas perplexidades a quem lê com os olhos de hoje sobre o que se passava naqueles loucos anos 70 e 80.

O tema interessa-me, pronto. Sobretudo porque, não sendo fã do futebol jogado (vejo o Belenenses, por amor à camisola, por vezes o St. Pauli, por amor à causa, e quase nada mais...), sou absoluto fã do futebol enquanto fenómeno associativo, de massas, eminentemente popular, subversivo.


 [imagem]

De resto foi interessante recordar a cara de espanto do professor-orientador quando lhe falei em claques desportivas.

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

"... a ciência é mais um modo de pensar do que um conjunto de conhecimentos"

Escreve Carl Sagan, no início do capítulo II da edição portuguesa de "O cérebro de Broca", que "a ciência é mais um modo de pensar do que um conjunto de conhecimentos". Tem toda a razão. Se a ciência fosse um amontoado de informação transitaria para o domínio religioso em menos de nada. Sendo antes um modo de pensar - não confundir com um receituário para a análise da realidade - a ciência renova-se permanentemente.

A leitura de "O cérebro de Broca" é na minha perspectiva fundamental no contexto em que vivemos, marcado pelo pré-conceito (o conceito a priori) e pela crença irracional e higienizada de dúvida e cepticismo. Basta compreender a forma como quase tudo o que se publica nos "media de referência" é imediatamente transposto para o discurso e o debate público como facto.

"O cérebro de Broca" deu cabo do meu fascínio pelos Dogon. Azar. A ciência não é um anti-depressivo destinado a aliviar o ser humano das fadigas do mundo louco que habita, não é uma forma colorida e academicamente legitimada de nos fazer sentir bem. Sagan explica-o de forma brilhante neste livro que dá luta, e que cria inquietação. Aconselho-o vivamente.


sábado, 2 de Agosto de 2014

Até depois.



[a tasca encerra para descanso e balanço até meados de Agosto; haja conquilhas, bom tempo, água quente e saúde.]

sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Stellardrone

O projecto musical Stellardrone está nos antípodas daquilo que é convencional. A música, que nada tem de comercial nem cai nos lugares comuns da cena "ambiente/new-age" das lojas de budas de metal e pauzinhos de incenso, é toda ela composta, editada/produzida e divulgada pelo compositor lituano Edgaras Žakevičius, um jovem nascido em 1987 em Vilnius.



O estilo de música electrónica que Žakevičius compõe está no topo das minhas preferências. Ouço todos os dias discos do género, exploro este mundo inesgotável de sons que conta histórias sem vozes nem letra. Trata-se de um ambiente de sensações que convida permanentemente à expansão das capacidades imaginativas.


["A moment of stillness", EP de 2011]

O projecto tem blogue, página no facebook e no bandcamp. Sugiro a visita e a descarga, gratuita, dos discos de Edgaras Žakevičius. Também os podem ouvir na íntegra no Youtube, através da conta que mais regularmente acompanho, The Psychedelic Muse.

Eu, de resto, vou contribuir para os projectos Stellardroneno futuro. O blogue explica como podem os fãs ajudar voluntariamente para a continuação da actividade musical deste compositor que vou conhecendo e ouvindo todos os dias.


[a história de Edgaras Žakevičius no magnífico site "A thousand stories".]

quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Pipa de massa. [ou Barroso, o grande amigo de Portugal...]

Barroso: É uma "pipa de massa" e deve ser suficiente para calar quem diz mal da Europa. Portugal vai receber 26 mil milhões de euros de apoio até 2020, no âmbito de um acordo de parceria com a União Europeia. O ainda presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, diz que Portugal conseguiu mil milhões de euros adicionais pelo esforço feito na consolidação orçamental.
[Expresso, 30.07.2014]


Portugal vai pagar à troika, composta pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, um montante em juros que equivale a quase metade do dinheiro que o país pode receber ao abrigo dos empréstimos do programa de assistência financeira. Durante o debate parlamentar do Orçamento Retificativo para 2011, no final de Outubro, aquele deputado comunista, eleito pelo círculo do Porto, perguntou: "Quanto é que serão os juros globais desta ajuda? Quanto é que Portugal pagará só em juros para nos levarem pelo mesmo caminho que a Grécia, ao empobrecimento generalizado do país?". A resposta do Ministério das Finanças a essa questão refere 34.400 milhões de euros, montante que corresponde ao valor total a pagar ao longo do prazo dos empréstimos e presumindo que Portugal recorre integralmente ao crédito disponível.
[Público, 25.11.2011]




[imagem]

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

A um deus desconhecido.

No fim-de-semana de 25 e 26 passámos duas tardes na Ericeira. Fomos à Foz do Lizandro e eu aproveitei para molhar o fato, que é coisa diferente de surfar ondas. No balneário do Rugby aprendi que há quem jogue Rugby e quem apenas se equipa. No universo paralelo do surf, eu visto o fato e vou molhá-lo para lá da rebentação.

A Foz do Lizandro é um bom sítio para não nos sentirmos demasiado cêpos. O facto de se tratar de um beach-break (uma praia onde as ondas quebram sobre fundo de areia) menos consistente e forte do que as praias mais a norte tornou a Foz do Lizandro, nomeadamente no Verão, num género de jardim do surf para gente que nunca apanhou uma onda na vida. Quer isto dizer que, naquele lugar (no Verão, repito), quem se sabe posicionar no mar está um passo à frente dos quarenta ou cinquenta praticantes que estão completamente fora do pico e que por isso se limitam a vê-las passar, nadando desajeitadamente em cima da prancha.

No domingo aproveitei a concentração de gente lá fora, no outside, para ficar mais próximo da praia, no inside. Seriamos cinco ou seis a apanhar ondas no inside para quarenta a vê-las passar no outside. A Foz do Lizandro é a prova-provada de que "crowd" nem sempre significa a completa impossibilidade de desfrutar do mar com sossego e escolha de ondas.




Quando chegámos à praia a maré estava cheíssima, acabadinha de encher até ao limite, e o cenário de vinte e seis cabeças lá fora permitiu-me passar a primeira hora e meia a brincar com os miúdos no rio. Depois eles foram lanchar e eu aproveitei o sol e o sossego para ler mais uma crónica do Gonçalo Cadilhe, uma crónica com o título "A um deus desconhecido", publicada na Surf Portugal #162, de Julho de 2006. Nela o autor fala-nos precisamente daquilo que motiva um surfista a entrar no mar num daqueles dias em que tudo o que é racional aconselha ao conforto da terra firme. Eu ia lendo e o texto parecia escrito de propósito para aquele dia...

"... viam o vento a começar a soprar de mar, viam o tamanho insignificante das paredes líquidas, viam a hora da maré..." e desistiam de entrar. "Mas para mim valia sempre a pena", acrescenta o Gonçalo. "Era pelo sítio. Era pelo caminho"... Era pela hora e meia sentado na prancha, houvesse ou não ondas para apanhar, crowd ou sossego para tolerar.

Vesti o fato e entrei, naturalmente. Era capaz de não ter entrado se não tivesse tropeçado naquela crónica, não sei. Mas entrei e aquela hora e picos de ondas, numa meia-maré que trouxe ondas de set a rondar o metro bem medido, foi para mim das coisas mais divertidas dos últimos tempos. Quem entrou depois de eu sair, lá para as sete e meia, deve ter apanhado um mar ainda melhor mas na verdade só agora me ocorre que assim terá sido. As que apanhei, as que vi passar, aquelas esquerdas a começarem no calhau e a terminarem para lá do meio da praia, souberam-me pela vida.

Não existem ondas más, escrevia ontem Danny Ritz no site "The Inertia". Tem toda a razão. O que existem são surfistas (surfistas em sentido lato) que não sabem ler o mar em todas as suas condições, em todos os seus estados.

terça-feira, 29 de Julho de 2014

Não em meu nome [a propósito das "sanções" da UE contra a Rússia]

A "Europa" (leia-se "a União Europeia") não existe, é um disfarce para o poder que efectivamente reside nas mãos dos países mais poderosos do bloco político-militar em que nos afundamos: Alemanha, França e Inglaterra. Tudo o que escrevo em seguida tem como destinatários estes três países na qualidade de decisores. Os restantes, os mandados, estado português incluído, não ficam de fora da crítica, bem pelo contrário. São cúmplices por acção e inacção, envergonham os seus povos e colocam-se ao lado daqueles que têm desenvolvido operações de desestabilização quase sem precedentes, em conjunto com o aliado americano e a sua organização militar multinacional, a NATO.

A mesma "Europa" que declarou guerra aos seus povos, que rouba a quem trabalha para encher os bolso à alta finança, a Europa da austeridade para a maioria e da opolência para os seus donos, a Europa que apoiou o golpe de Kiev mas chama criminosos aos ucranianos que resistem a Leste, a Europa que se colocou ao lado dos "rebeldes" na Líbia e na Síria, que financia a guerra que destruiu e destroi dois países laicos e estáveis em zonas de altíssima instabilidade no globo terrestre, a Europa que apoiou as guerras de Bush e a guerra afegã de Obama, a Europa fortaleza que chora cínicas lágrimas pelos afogados de Lampedusa mas que nada fez nem faz para os salvar, a Europa que se mostra incapaz de condenar o holocausto palestiniano em Gaza e na Cisjordânia, a Europa que se foi estruturando de costas para as pessoas, na qual já quase ninguém acredita, a Europa que convive pacificamente com presos políticos em estados membros, mas que faz do julgamento-espectáculo das "Pussy Cat" assunto de Estado(s), falou grosso com a Rússia e vai decretar sanções "que não façam ricochete". Por exemplo, apesar das sanções "a França conseguirá vender um navio de guerra que já tinha sido pago pelo Governo russo".

Tivesse esta Europa memória e apresentaria à Rússia um formal e solene pedido de desculpas por 70 anos de agressões, sabotagem e mentiras contra o país dos sovietes. Dentro de quatro anos passarão 100 anos sobre a invasão dos países da Entente contra a jovem revolução soviética, um acto de agressão que provocou milhões de vítimas, todas "cientificamente" atribuídas "ao comunismo".


 [o governo português de Durão Barroso foi anfitrião da tristemente célebre cimeira das Lajes, o início da segunda agressão ao Iraque. fotografia: ionline]

Perguntar-se-ão muitos quais as razões de tão patética decisão? Ninguém sabe ao certo e a Europa não as explicita pela simples razão da provocação se basear em atuardas mediáticas e suposições que carecem em absoluto de prova. Quem abateu o Boeing 777 das linhas aéras da Malásia? O Público diz que "todos suspeitam" de tecnologia russa usada pelos "separatistas". Mas da suspeita - apresentada como suposição "de todos", o Público não faz por menos... - à prova vai um passo do tamanho da seriedade e na verdade ninguém sabe ao certo quem é responsável por este e outros episódios da triste guerra no Donbass, um conflito que provocou desde Abril mais mortos do que a agressão israelita a Gaza e no âmbito do qual toda a região sudeste da Ucrânia tem sido sujeita a bombardeamentos ordenados pela Junta de Kiev. Ucranianos das regiões ocidentais que bombardeiam ucranianos russófonos do leste do país.

Pois bem: em meu nome não. Nenhuma "Europa", nenhum governo PS, PSD ou CDS me representam nesta e noutras matérias. As sanções contra a Rússia são uma farsa, uma peça do puzzle da disputa pelos recursos energéticos e alimentares que farão do século que vivemos uma bomba relógio permanentemente pronta a detonar. Esta "Europa" é uma farsa, não me representa.

Na qualidade de cidadão português, de jovem trabalhador deste país a saque, apresento as minhas desculpas ao povo líbio pela participação de Portugal na destruição do seu país. E ao povo sírio, vítima da falta de princípios também de PS, PSD e CDS. Peço desculpa à Sérvia e ao seu povo, pela destruição do país, pelas vidas ceifadas sem que justiça alguma tenha sido feita. Peço desculpa aos povos do Iraque por vinte cinco anos de agressão ininterrupta, e ao povo afegão que não merecia tamanha violência e tão suja guerra. Peço por fim desculpa à Palestina pela vergonhosa cumplicidade de Portugal com o estrangulamento da sua liberdade e ao povo da Ucrânia pelo apoio de Portugal à Junta nazi-fascista de Kiev, responsável por episódios de violência e crimes contra a sua população do leste, permanentemente silencionados nos media nacionais.

Não passarão. Demore o tempo que demorar, custe as lutas que custar, não passarão.

"Hold on to the thread / The currents will shift / Guide me towards you..."



["Oceans", Pearl Jam, do álbum "Ten", 1991]

segunda-feira, 28 de Julho de 2014

100 anos.

A "grande guerra" 1914-1918 começou há precisamente 100 anos.
Que a memória não se apague, que a carnificina não se repita.