sábado, 25 de Outubro de 2014

Muda a "violência", mantém-se o alinhamento.

 


O PS anunciou pela voz da sua renovada e rejuvenescida liderança parlamentar - que tem como rosto principal Ferro Rodrigues, ex-secretário geral do partido e ex-ministro dos pantanosos governos de Guterres, e na vice-presidência Vieira da Silva, também ele ex-ministro de Sócrates nas pastas da Economia e do Emprego - que "vai abster-se na resolução sobre reestruturação da dívida".

A coisa ganha contornos cómicos se tivermos em conta que a resolução que merecerá a abstenção (não violenta) do PS tem por base o chamado "manifesto dos 74", que foi subscrito pelo seu actual líder parlamentar - ver lista de subscritores aqui - e que abora da questão da reestruturação da dívida nestes termos: "Nenhuma estratégia de combate à crise poderá ter êxito se não conciliar a resposta à questão da dívida com a efectivação de um robusto processo de crescimento económico e de emprego num quadro de coesão e efectiva solidariedade nacional. Todos estes aspectos têm de estar presentes e actuantes em estreita sinergia. A reestruturação da dívida é condição sine qua non para o alcance desses objectivos.".

De acordo com Vieira da Silva, "a discordância dos socialistas ao projeto do BE tem que ver com o facto de se recomendar ao Governo que inicie um processo de negociação da dívida". Ora, no manifesto assinado pelo actual líder parlamentar do PS é referido, no seu ponto 3 ("Reestruturar, pelo menos, a dívida acima de 60% do PIB"), que "a celeridade da aprovação e entrada em funcionamento do regime de reestruturação é vital. A única maneira de acelerar essa negociação é colocá-la desde o início no terreno firme do aproveitamento máximo da cooperação entre Estados-membros, de modo a acolher o alongamento do prazo de reestruturação, a necessária redução de juros e a gestão financeira da reestruturação, tendo em atenção as finalidades visadas pelos mecanismos de reestruturação."

O PS nada diz sobre o que pensa relativamente à questão fundamental que se coloca ao país: como resolver o problema da asfixia económica e social que é em larga medida resultado da forma como o problema da dívida foi tratado primeiro pelo governo PS/Sócrates e agora pelo governo PSD/CDS. Costa mantém um silêncio comprometido relativamente ao concreto da sua política, utilizando as suas aparições públicas para proclamações vagas e genéricas, que não fazem qualquer luz sobre aquilo que tenciona o PS fazer relativamente à dívida caso venha a constituir governo num futuro próximo.

Repito o que neste mesmo blogue escrevi há algum tempo atrás: Costa não veio mudar nada. Zero. E até o efeito que poderá ter tido no que a sondagens diz respeito será sol de pouca dura se o PS se mantiver alinhado com o essencial do processo que desde 2011 foi imposto por via do medo e da agiotagem ao nosso povo e ao nosso país: uma sangria de recursos que transfere verbas colossais dos bolsos de quem menos tem para os bolsos dos vampiros dos tempos modernos, o sector financeiro e os especuladores nacionais e internacionais que somam lucros astronómicos à conta de uma dívida ilegítima e resultante de políticas desastrosas.


[imagem]

O silencioso drama da fotografia



[o vídeo no site TED]

Robb Kendrick: Life in India’s Coal Mines

Vale bem a pena gastar o equivalente a um maço de tabaco para comprar a edição de Outubro da National Geographic portuguesa. As páginas dedicadas ao projecto fotográfico de Robb Kendrick sobre o tema do carvão justificam plenamente o investimento.

Para quem não pode, ou não quer, deixo o link para uma página que contém uma boa parte das fotografias publicadas na revista. A fotografia é de facto uma forma privilegiada de dar a conhecer o mundo na sua diversidade e enorme amplitude.




[fotografia: Robb Kendrick]

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Sobre a relevância da ameaça lançada pelo PSD aos Verdes

O episódio passou ao lado da maioria mas teve lugar, tem relevância e deve merecer reflexão sobre a qualidade da nossa democracia e os perigos que a estão ameaçando constantemente, de forma cada vez mais evidente: no período de declarações políticas da sessão plenária de ontem, na Assembleia da República, o PEV utilizou o seu tempo para fazer mais uma denúncia sobre a política do governo; em resposta, um deputado do PSD fez aquilo que normalmente faz a actual maioria quando a interpelação tem como protagonistas os deputados do PEV: ignorou olimpicamente o tema e concentrou todo o seu escasso poder de fogo no argumento do costume referindo que "Os Verdes nunca foram a votos, nem têm uma política exclusiva".

O caldo entornou-se e o líder parlamentar da bancada do PSD ameaçou com a alteração das regras de funcionamento da AR: "Talvez o episódio de hoje nos deva forçar a fazer esta reflexão e a tomarmos decisões para adequar o funcionamento da Assembleia com a representação da vontade popular". A ameaça faz lembrar recente debate travado na Rada ucraniana, que dominada pelas forças de extrema-direita que impuseram ilegal deposição do governo do país alterou o regulamento daquela assembleia no sentido de impedir a constituição de um grupo parlamentar comunista.

De resto o PSD não tem qualquer autoridade moral para questionar a legitimidade da representação parlamentar do PEV quando o Partido é parte integrante de uma coligação eleitoral que não apenas cumpre todos os requisitos da lei como se apresenta ao povo com as siglas e os símbolos dos partidos que a constituem:




Os deputados do PEV são eleitos pelo povo nos círculos eleitorais onde a CDU tem força suficiente para garantir a sua eleição - Lisboa e Setúbal - e na AR apresentam-se com total independência face ao grupo parlamentar o PCP, existindo exemplos concretos de temas nos quais o votos do PCP não é coincidente com aquele expresso pelo PEV.

O programa político do PEV, coincidindo em vários aspectos com o programa do PCP, distancia-se em inúmeras e relevantes matérias das opções do PCP, facto que não espanta nem coloca em causa a legitimidade por um lado e a utilidade por outro de dois partidos com tantos pontos de convergência se apresentarem conjuntamente a eleições.

Note-se aliás que, sendo a mais antiga e bem organizada força partidária portuguesa, o PCP tem uma longa tradição de se apresentar a eleições em convergência com outras forças políticas nacionais. Na verdade, apenas em apenas em 1976 concorreu sozinho a eleições legislativas. Em 1979, 1980, 1983 e 1985 apresentou-se integrado na APU - Aliança Povo Unido - e depois disso sempre no quadro da CDU. Assim, por uma questão de coerência, o PSD poderia muito bem alargar a ameaça formulada contra o PEV ao próprio PCP.

Por outro lado, quem é tão ligeiro na formulação de ameaças que envergonham a Assembleia da República e colocam a nú a estreita e deformada concepção de democracia da direita nacional, deveria saber que quem aponta um dedo tem outros três direccionados para si próprio. O PSD formou com o CDS uma coligação pós-eleitoral que não foi legitimada através do voto. O PSD tem igualmente feito eleger nas suas listas elementos de outros partidos - casos de Nuno da Câmara Pereira, ao tempo vice-presidente do PPM, ou Pedro Quartin Graça, então vice-presidente do MPT - sem apresentar no boletim de voto qualquer referência a estes partidos (nem sigla nem símbolos).

O sistema não tolera a diferença e se não o manifesta mais vezes é por puro instinto de auto-protecção. Uma ameaça do género lançada contra o PCP não passaria tão ao lado do país como aquela que, igualmente perigosa, foi lançada contra o PEV.

Ao PEV toda a minha solidariedade. Como votante da CDU, exercendo o meu direito de voto no círculo eleitoral de Lisboa, não hesito em contribuir com toda a confiança para a eleição do maior número possível de eleitos da CDU, incluindo aqueles que são independentes, militantes do PEV ou associados da Associação Intervenção Democrática, também ela parte da Coligação Democrática Unitária.

A democracia política é frágil em Portugal. É sabido que a democracia económica não existe, que as suas expressões cultural e social padecem de problemas gravíssimos que 38 anos de políticas criminosas foram destruindo e desmembrando. Parece-me que é tempo de perceber que há em Portugal quem queira formatar a "democracia" política às necessidades dos seus projectos de controlo absoluto. É tempo de acordar.

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

"Ética na austeridade", ou a paciência de um povo que sofre.

À medida que o Orçamento do Estado para 2015 vai sendo debatido tornam-se mais claras as opções do governo em funções bem como quem delas mais beneficia e quem com elas mais sofre. Entre os mais penalizados encontram-se os cidadãos residentes em Portugal que devido às miseráveis circunstâncias da sua vida beneficiam de apoios do Estado, em particular do RSI e do subsídio social de desemprego. Para estes a actual maioria é forte e implacável.

Mota Soares foi hoje ao Parlamento falar diante dos deputados da comissão que trabalha as questões da segurança social. Durante as suas múltiplas intervenções foi sempre capaz de se referir com evidente desprezo relativamente aos que "tendo idade para trabalhar" não o fazem, sobretudo numa altura em que segundo o homem do CDS há um grande aumento da oferta no mercado de trabalho.

Não sei em que dados se baseia o governo/CDS para se referir ao "grande aumento da oferta no mercado de trabalho" que hoje foi argumento na Assembleia para justificar novo corte nos apoios sociais destinados aos mais pobres de entre os mais pobres deste país. O que sei é que o CDS se refere aos portugueses a quem o estado vale através de parcos subsídios com um desprezo evidente faz muito tempo.

Em 2009, quando já se adivinhava uma crise social profunda por via do aprofundamento da crise estrutural do capitalismo com expressão no processo que teve na crise financeira de 2008 o seu catalisador, Portas referia-se aos portugueses que beneficiavam então do RSI (na sua maioria menores e idosos em situação de pobreza, bem como trabalhadores cujos rendimentos são insuficientes para dar uma vida digna aos seus agregados familiares) como "gente que, pura e simplesmente, não quer trabalhar e quer viver a custa do contribuinte". "Financiamento à preguiça", disparava um CDS que assumia o "compromisso absoluto" de "dar prioridade social aos mais velhos e reformados e ao aumento das pensões de reforma".

Cinco anos depois o risco de pobreza aumentou (e as fortunas também), o número de portugueses idosos e muito jovens em situação de pobreza (ou a ela vulneráveis) cresceu, os apoios sociais foram cortados, o IAS mantém-se congelado (na prática diminuído), as pensões roubadas, os salários mutilados por formas diversas (com destaque para a destruição da contratação colectiva e para as alterações à legislação laboral). Dinheiro há, está é mal distribuído (como dizia a canção dos Peste & Sida), uns têm muito (cada vez mais) e outros nada (ou perto disso).

De resto a maioria governante, e dentro dela um CDS que certa imprensa insiste em apresentar como oposição ao governo dentro do governo, continua a distribuir benesses às grandes empresas de forma profundamente opaca, como bem refere o Tribunal de Contas em recente relatório ("Paulo Núncio desvaloriza o relatório do Tribunal de Contas onde a instituição diz que são concedidos muitos mais milhões de euros em benefícios fiscais, nomeadamente às empresas, do que aqueles que as Finanças divulgam. (...) Na semana passada o Tribunal de Contas publicou as conclusões de uma auditoria dizendo que as estatísticas sobre os benefícios fiscais não são de fiar e que, no caso particular das empresas, o Estado atribui bem mais incentivos do que os que são reportados."). Núncio, o ministro dos benefícios-fiscais às grandes empresas, é secretário de estado indicado pelo CDS, note-se bem.

A falta de vergonha atingiu em Portugal uma dimensão nunca antes vista.
A fome e a miséria, o desespero e a violência social, convivem lado a lado com uma minoria rica cada vez mais faminta de dinheiro, recursos e poder. Até quando? Apenas o povo - o povo miúdo - poderá responder. Até quando - até onde - esticará a sua paciência?

sábado, 18 de Outubro de 2014

Belenenses

O Belenenses vai hoje a votos. Os associados que cumprem as condições estatutariamente estabelecidas para votar escolherão o próximo presidente do clube que é, apesar de tudo, uma das paixões da minha vida. Eu não votarei pela simples razão de não cumprir as condições para o efeito: deixei há muito de ter quotas em dia.

O Belenenses - a verdadeira paixão pelo clube que me corre nas veias - é uma das importantes heranças que recebi dos meus familiares mais próximos de ambos os lados da família. O avô da minha avó materna era guarda-campo nas Salésias. O pai do meu pai nasceu na Travessa da Pimenteira, e cinco minutos do campo histórico do Belém. O pai da minha mãe foi atleta, dirigente e associado do clube desde sempre. Quando deixou de pagar quotas há alguns anos atrás, profundamente triste com o rumo de destruição do Belenenses "consagrado e popular" que era o clube de todos os lisboetas do ocidente da cidade, teria um dos primeiros 50 números de associado. A minha bisavó materna costumava contar-me a história de um irmão seu que morreu ainda criança, e que no dia em que foi para o hospital - de onde nunca mais sairia com vida - pediu à mãe que lhe vestisse as meias azuis do Belenenses.

O Belém não é para mim apenas um clube, muito menos uma equipa de futebol. O Belenenses é a mais digna e relevante instituição da minha terra, da terra dos meus avós.

É por isso com alguma tristeza que tenho acompanhado uma campanha que não me motivaria a votar caso estivesse em condições de o fazer. Não deixaria de votar, atenção... apenas não o faria com a convicção que outros consócios, bem mais conhecedores e dedicados ao clube por quem tenho enorme admiração e estima, votarão.

O Belenenses precisa de mudança e entusiasmo. Precisar de regressar aos valores fundamentais da sua génese. Deve retomar a sua natureza associativa primeira, abandonar a asfixia "empresarialista" em que se foi metendo, compreender que um clube quase centenário, emblema orgulhoso profundamente enraizado nas freguesias mais ocidentais de Lisboa, e em municípios como Oeiras, Sintra, Almada e Amadora, não terá futuro algum se for "gerido" nos mesmos moldes que uma empresa. O Belenenses não é uma empresa. Repito: o Belenenses não é uma empresa.

Não sei se a lista A tem totalmente presente esta distinção. Não sei se existe no seu seio inteira consciência do que é preciso fazer para devolver o clube à cidade e ao país, aos seus sócios e adeptos. Sei em todo o caso que a lista B, do actual presidente, não entende o clube na sua natureza associativa e identidade desportiva. Se hoje fosse votar ao degradado Complexo Desportivo do Restelo sei bem que na lista B jamais votaria.

De resto espero sinceramente que haja mudança, e que a mudança represente, mais do que uma renovada ambição de bons resultados desportivos, uma lufada de ar fresco em termos associativos. "Meu Deus, somos tão poucos..." avisava Acácio Rosa há 40 anos atrás. Hoje somos uma décima parte do que eramos então. A sobrevivência do Belenenses reside inteiramente na questão associativa. Quem a resolver ficará na história do clube pelas melhores razões.

Viva o Belenenses.
Vivam os verdadeiros Belenenses.

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

É o capitalismo, estúpido!

Portugal com mais pobres do que em 1974. Um em cada quatro portugueses está em risco de pobreza e quem recebe o salário mínimo ganha menos 12 euros do que em 1974 (descontando a inflação), indicam dados atuais divulgados pela base de dados Pordata.
[SIC Notícias, 17.10.2014]

No corrente ano, Portugal soma já mais 10 777 milionários, num total de 75 903 de adultos com uma riqueza superior a um milhão de dólares (789 mil euros). [...] por cá, 10% dos mais ricos detêm 58,3% da riqueza, mais 2,3 pontos percentuais face a 2007.
[JN, 15.10.2014]

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

A guerra das estrelas

Há uns anos atrás comprei uma edição de bolso da Europa-América, número 67 da colecção Ficção Científica, contendo o texto romanceado de "Star Wars - A guerra das estrelas". O livro é a transposição do filme, o IV episódio da "saga", intitulado "A new hope" ("Uma nova esperança"). Já o havia iniciado antes, mas apenas nestes dias que passam consegui vencer a sempre complicada barreira do primeiro capítulo. A história é boa e a escrita também. Só que não é de George Lucas...

O nome do homem que imaginou o universo Star Wars e que produziu e realizou os seis filmes que contam a história consta da capa da edição da Europa-América (e creio que de muitas outras edições estrangeiras também)... mas na verdade quem escreveu a primeira de muitas romantizações não foi Lucas mas o escritor norte-americano Alan Dean Foster.

O comércio estrangula quase tudo, a lógica do lucro atropela a vida e subverte a história pública das coisas privadas. Andei boa parte destes anos firmemente convencido de que George Lucas havia escrito e feito publicar, sob a forma de romance, a história maravilhosa que a sua imaginação criou.

Seja como for, o que mais me tem dado que pensar durante a leitura de "A guerra das estrelas" refere-se ao processo criativo - na forma e no conteúdo - associado à "romantização" de uma história previamente dada a conhecer através do cinema, com estrondoso sucesso. Poderá nestes casos o livro alcançar o nível do filme e superá-lo? Muitos dirão que depende de uma coisa e da outra, da qualidade do livro e da arte presente no filme. Eu não sei, com franqueza.

domingo, 12 de Outubro de 2014

sábado, 11 de Outubro de 2014

Troco livros.

Eu troco livros.
Em especial troco livros que tenho repetidos por Vernes - livros de Júlio Verne, claro - que ainda não tenho.

Os Vernes que já cá estão em casa são:
20 mil léguas submarinas;
Senhor do Mundo;
A jangada;
Aventuras de três russos e três ingleses;
Os filhos do capitão Grant (1º volume);
A caça ao meteoro;
Cinco semanas em balão;
Viagem ao centro da terra;
À volta da Lua;
As Índias negras;
A esfinge dos gelos;
Da terra à lua;
Robur, o Conquistador;
A volta ao mundo em 80 dias.

Todos os restantes são bem vindos
Vocês mandam-me um Verne, e eu mando-vos um dos meus repetidos à vossa escolha, boa? É só deixar mensagem aqui no blogue, ou melhor ainda, enviar-me um e-mail (o endereço está na barra em cima, logo abaixo do título do blogue).

Obrigadinho pela atenção.

Costa.

A direita não se entende acerca das verdadeiras intenções de Costa. Se Barreto lembra que "o PS é geneticamente anticomunista", lamentando eventual aliança com os comunistas (só se esqueceu de referir que eventual aliança do PS com o PCP não depende apenas da vontade de Costa e do PS...), Pedro Marques Lopes afirma que "dá-me vontade de rir quando se diz que Costa vai unir a esquerda" e acrescenta o óbvio: "António Costa está muito mais próximo do PSD tradicional do que do Bloco de Esquerda ou do Livre ou do Daniel Oliveira. Então do PCP...".

Na aparente contradição estão ambos correctos. Costa é digno herdeiro da genética anticomunista a que se refere Barreto, e que presidiu ao nascimento e crescimento do PS; e talvez por isso esteja de facto muito mais próximo do PSD tradicional, como bem lembra Marques Lopes. Alianças "à esquerda" são coisa que o PS nunca pretendeu, nunca fez por construir, nunca mostrou interesse em aprofundar.

O recente processo em torno da presidência da Área Metropolitana de Lisboa é bem a imagem do que é o PS e da postura de Costa face à esquerda: num cenário em que a CDU preside a 50% dos municípios da área, Costa juntou-se a PSD e CDS para impôr uma presidência sua naquela estrutura. Esclarecedor?

António Costa não veio para mudar nada. Aliás, Costa é uma das peças-chave do país que se afundou em swaps, PPPs, contratos ruinosos e dívida privada transformada em pública, financeirização e destruição do aparelho produtivo, euro, desemprego e pobreza. Tem impressões digitais por toda a cena da ruína nacional.

Ganhou as "primárias" do PS para uma candidatura que verdadeiramente não existe sem dizer uma única palavra sobre o que pensa relativamente à renegociação da dívida, as privatizações, a reposição de salários e pensões ou a reposição dos direitos laborais roubados com a participação do PS. Recebeu portanto um cheque em branco, embrulhado em entusiasmo eleitoralista. Costa foi designado "candidato a primeiro ministro" porque é, acreditam os militantes e apontados do PS, "a melhor opção" para ir ao pote.

A verdade é que Costa não deseja nenhuma verdadeira aliança, nada tem feito para a construir pela base. E porque lhe parece possível o poder absoluto, não tem vergonha em pedi-lo. Fá-lo, claro está, sem nada dizer sobre o que pensa dos mais relevantes problemas do país. Com ou sem "Livre", Costa é isto. Mais do mesmo. A "genética anticomunista" do PS em movimento, traga ou não cravo na lapela.