quinta-feira, 17 de Abril de 2014

A melhor homenagem que as livrarias poderiam prestar a Garcia Marquez

A melhor homenagem que as livrarias poderiam prestar a Garcia Marquez era não encherem as montras de livros seus no dia de amanhã. Se eu tivesse uma livraria não o faria. Não faria marketing a propósito da morte de um dos maiores escritores do século XX e um dos nomes maiores da literatura (e não apenas da literatura) latino-americana.

Coloquem um retrato seu na montra, por exemplo.
Organizem, se tiverem espaço e tempo para isso, uma sessão de leitura de obras suas.
Debatam-lhe a obra, a vida, a mensagem.
Conversem-no com quem se interessa por livros.
Mas não encham as montras de obras suas, só porque amanhã se venderão mais livros de Garcia Marquez do que é normal.

Até sempre, camarada.

Soube há minutos que Gabriel Garcia Marquez morreu. Poucas notícias me poderiam deixar mais triste nesta noite.

A primeira pessoa que me ocorreu, depois de saber da tristíssima notícia, foi Saramago. E logo depois Fidel. Por fim todo o povo sul-americano. O povo miúdo da pátria continental de Bolívar, a quem Garcia Marquez dedicou o grande livro "O general no seu labirinto".




Até sempre, camarada.
Cá ficaremos, lutando por aquele mesmo ideal de justiça que está em toda a tua obra.


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"Tyranny of an Object" (II)



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Partidos do arco da pouca vergonha

PSD, CDS e PS chumbam resolução para a renegociação da dívida
Projecto apresentado pelo PCP só convenceu comunistas, “verdes” e bloquistas. Direita e socialistas desafiaram PCP a clarificar se pretende a saída do euro, como tem defendido o cabeça de lista do partido para o Parlamento Europeu.
Público, 16/04/2014

PSD, PS e CDS-PP 'chumbam' regime de exclusividade
Os diplomas do BE para tornar obrigatório o regime de exclusividade dos deputados e do PCP para alargar o regime de incompatibilidades dos titulares de cargos políticos foram chumbados hoje com os votos contra da maioria e do PS.
Notícias ao Minuto, 17/04/2014




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A ficção-científica no contexto da ditadura do mercado.

Ontem passei a minha hora do almoço numa das grandes livrarias - esta ainda independente - da zona da cidade onde trabalho. A secção de ficção-científica está reduzida ao osso, e dominada pelo género "fantástico", uma espécie de "nada" da História Interminável que se abateu sobre o género e que o devora.

A ditadura do mercado é isto mesmo: a ficção mágica (um género que se desenvolveu em torno do imaginário da Terra Média de J.R.R.Tolkien, com variações de qualidade assinaláveis, mas em regra sofrível) vende; a ficção-científica não.

Não está em causa a qualidade da obra de Philip K. Dick, Isaac Asimov, Michael Crichton, Arthur Conan Doyle, Arthur C. Clarke, dos irmãos Strugatsky, da passagem de Doris Lessing pelo género, de Harris Harrison, Joe Haldeman ou Robert Heinlein, para referir apenas alguns nomes maiores. Nenhum editor ou livreiro no seu perfeito juízo ousaria dizer, tão pouco escrever, que a obra de Philip K. Dick não tem qualidade para novas edições, ou para destaque num qualquer ponto de venda.

O que se passa então? O que explica o misterioso desaparecimento da ficção-científica dos escaparates das nossas livrarias?

A minha percepção sobre o assunto assenta na experiência que tenho de leitor e frequentador assíduo de livrarias. Arrisco todavia três vias relacionadas:

a) A ditadura do mercado matou a ficção-científica como género literário autónomo face à "fantasia", que tem cada vez mais leitores, autores, edições e visibilidade. Naturalmente que os géneros literários não vivem em compartimentos estanque e há autores de ficção-científica que usam elementos do "fantástico" da mesma forma que o "fantástico" vai beber com naturalidade (ainda que muitas vezes sem mestria) à ficção-científica. Seja como for parece-me que um (o "fantástico", e sobretudo o fantástico de inspiração histórica) está a tragar o outro (a ficção-científica), sem apelo nem agravo, nem remorso de qualquer tipo;

b) A ditadura do mercado entende a produção literária como um género particular de mercadoria que obedece às mesmas leis de oferta e procura que "regulam" outro tipo de bens. O Miguel Tiago explica-o muitíssimo bem neste seu post do Manifesto 74, e no seio das livrarias o princípio da oferta/procura tem expressão perversa que importa descrever nas suas características básicas: um livro, autor ou editora que circunstancialmente tem menor procura (que não vende) acaba por não conhecer novas edições nem exposição nos pontos de venda, acabando por sair quase inevitavelmente do circuito comercial; ora, isto resulta num género de profecia auto-realizada, já que se determinado livro, ou autor, ou género literário, desaparece do circuito comercial muito dificilmente terá condições para se reerguer.

c) Um terceiro elemento diz respeito ao progressivo desaparecimento das lojas independentes e dos alfarrabistas, ilhas de democracia literária/cultural que são absorvidas ou simplesmente devastadas pelo poder absoluto dos gigantes retalhistas do mercado dos livros.

A ditadura do mercado exerce verdadeira censura sobre o que é publicado e o que é disponibilizado num circuito comercial cada vez mais concentrado nas mãos das grandes marcas. Em Portugal o grupo Leya e as lojas FNAC.

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Retro ou futurista?



(comunicadores dos prédios "Montepio Geral" de Rui Atouguia na Av. do Brasil)

"Tyranny of an Object"

A expressão "a tirania de um objecto" encontra-se nas páginas iniciais de "Do Androids Dream of Electric Sheep?" de Philip K. Dick, o romance que entre nós foi publicado com o título do filme a que deu origem ("Blade Runner"). Aparece durante diálogo entre Rick Deckard e Rachael Rosen, a propósito da posse de animais verdadeiros, num mundo profundamente abalado pela recente guerra nuclear e pela consequente extinção em massa de animais não humanos.

Deckard é dono de um carneiro electrónico e ambiciona vir a ter um animal verdadeiro, "produto" muito cobiçado no mundo de "Do Androids Dream of Electric Sheep?". A expressão "a tirania de um objecto" refere-se precisamente ao carneiro electrónico de Deckard, ou à ausência de uma relação verdadeiramente real entre um ser humano e um objecto tecnológico, por muito evoluído que este seja. Refere-se ainda, de certa forma, aos andróides humanóides que o protagonista principal da história de Philip K. Dick persegue a troco de prémios monetários.




Tirania de um objecto, ou tirania tecnológica, parece-me um bom motivo de reflexão num mundo cada vez mais concentrado em pequenos e grandes écrans, numa inversão perceptiva aberrante que está a moldar a evolução - física e mental - humana. Qual será - o que será... - hoje a realidade virtual para a grande maioria dos seres humanos das sociedades mais industrializadas deste mundo? Não é verdade que, para muitos, o que não existe na televisão ou na internet tem existência no mínimo duvidosa no mundo real? Ou por outras palavras, existirá no mundo supra-tecnológico aquilo que não tem existência nos "bites e baites" de computadores, tablets, telemóveis e televisões?

Muitos seres humanos procuram hoje refúgio para uma esmagadora solidão nos seus carneiros electrónicos. Conhecem-nos melhor do que aos outros seres de carne e sangue que os rodeiam. São tiranizados pelo écran do telemóvel que os deixou endividados por largos meses. E ao contrário de Rick Deckard não sonham com a saída desse mundo de tirania tecnológica.

Que não seja preciso chegar ao mundo de "Blade Runner" para percebermos o beco em que nos vamos metendo, é o que sinceramente espero.


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domingo, 13 de Abril de 2014

Vicente.

Hoje é dia de comprar "A Bola", hábito que perdi há muitos anos atrás, mais ou menos por altura do falecimento de Homero Serpa. Não se deverá a estranha compra ao facto do Belenenses ter vencido, coisa rara numa Liga em que os azuis do Restelo somam apenas 6 vitórias em 26 partidas completas. O motivo é outro e chama-se Vicente.

Qualquer belenense que se preze conhece, pelo menos no essencial, a história de Vicente, o central azul que marcou uma época do futebol português e que se celebrizou por "secar" Pelé no Portugal-Brasil do Mundial de 1966. Vicente foi um defesa excepcional, um jogador fino, correcto, que ganhava em poder de antecipação o que perdia no jogo duro de muitos colegas de posição.

Foi um verdadeiro mestre do centro da defesa, herdeiro digno das célebres Torres de Belém de meados dos anos 40. E foi, sobretudo, um jogador de uma humildade - no melhor sentido, e na melhor expressão prática do termo - inigualável. Foi e é.

Infelizmente a vida pregou-lhe uma partida: um estúpido acidente de automóvel roubo-lhe a visão num dos olhos e o que restava de uma grande carreira no seu clube de sempre.

Que "A Bola" volte a dedicar páginas de uma edição de fim-de-semana a Vicente é coisa de elementar justiça. Hoje vale a pena comprar o diário desportivo.




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sábado, 12 de Abril de 2014

Bandas




[mais aqui]

"2001: Odisseia no Espaço", de Arthur C. Clarke

"2001: Odisseia no Espaço" não foi o primeiro texto de Arthur C. Clarke que li. No verão passado tinha-me apresentado à obra de um dos chamados "três gigantes" da ficção científica (Clarke, Asimov e Robert Heinlein) com "Anti-Crepúsculo", aquele que creio ser o seu primeiro romance, editado em português pela Europress num volume que inclui "O Leão de Comarre", do mesmo autor.



Acontece porém que não estava preparado para o livro que terminei no final da passada semana. Entre "Anti-Crepúsculo", de 1948, e "2001: Odisseia no Espaço", escrito paralelamente ao trabalho com Kubrick no filme do mesmo nome, entre 1964 e 1968, Clarke evoluiu de um estadio primitivo para outro de absoluta mestria.

O livro conta a história da descoberta, por parte da uma equipa de exploração lunar norte-americana, de uma misteriosa lâmina de origem não natural enterrada vários metros abaixo da superfície, numa das mais importantes crateras do satélite natural da terra, a cratera de Tycho. A lâmina é baptizada como TMA-1.


 [Wikipédia; imagem alterada]


O governo norte-americano envia à Lua um especialista (o Dr. Heywood Floyd), que mais tarde estará em contacto directo com a tripulação da nave Discovery, enviada para os anéis de Saturno com cinco seres humanos dentro e um computador evoluído da série HAL 9000.

Depois do HAL 9000 da Discovery se ter amotinado, num género de sequela futurista do monstro Frankenstein de Mary Shelley, o único sobrevivente da Discovery desliga-o e conforma-se com a evidência de se encontrar numa viagem sem retorno nem esperança de sobrevivência. David Bowman assume-se então como um embaixador da Humanidade numa parte do sistema solar nunca antes visitada. Sobre a solidão de Bowman escreve Clarke: "(...) ultrapassara o desespero, deixara para trás a esperança, e acomodara-se a uma rotina largamente automática".


 [Poole e Bowman, numa cena do filme de Kubrick; imagem]


A rendição de David Bowman é todavia posta em causa quando a Discovery se aproxima de Saturno e em particular da sua lua Japetus, o destino da missão. Em Japetus, Bowman descobre uma segunda lâmina negra, semelhante à de Tycho. É através da exploração desse mecanismo de transporte entre lugares fora da nossa concepção, humana e terrestre, de tempo-espaço que a história se desenvolve vertiginosamente, num último quarto de livro que reli três vezes até ser capaz de o compreender suficientemente bem.

Em Japetus, David Bowman ultrapassa as limitações a que se auto-impõe através de um pensamento murado, cercado, tão comum nos seres humanos. Ao fazê-lo parece passar a viajar pelo Cosmos liberto dos constrangimentos tão tipicamente humanos, tornando-se por fim "senhor do mundo", depois de um renascimento cuja compreensão da natureza simbólica me importaria aprofundar.

"2001: Odisseia no Espaço" é um livro esplendoroso, que aborda problemas que em 1968 começavam a dar que falar - como o desastre ambiental, o excesso de população, as tensões nacionalistas sempre a alimentar conflitos bélicos neste pequeníssimo ponto que vagueia pelo Cosmos, em torno do seu Sol - e outros que eram centrais naquele tempo e permanecem primordiais neste que vivemos - como a ameaça nuclear ou as consequências da dependência tecnológica do homem, que vive tempo emprestado num planeta que domina pela força bruta. O capítulo inicial é ainda um dedo brutalmente apontado ao homem e à sociedade que foi (in)capaz de construir, e que se reflecte em larga medida nas comunidades de homens-macacos do início da evolução humana.

Aconselho vivamente.