segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Fim-de-semana em Santa Cruz.


[há qualquer coisa que atrai os seres humanos até às zonas de fronteira; a praia é precisamente um desses territórios]

 [não, não é o H.]




75 anos do início da II Grande Guerra.

Há 75 anos atrás, a 1 de Setembro de 1939, as tropas alemãs iniciaram a invasão da Polónia, naquele que é considerado o momento que desencadeia a Segunda Grande Guerra 1939-1945. Para que a memória não esqueça, e para que todos possam reflectir sobre o significado da tragédia humana que a hipocrisia das "democracias" não travou (bem pelo contrário...), aqui fica a referência à data. Para que nunca mais aconteça fascismo.




[sobre o assunto aconselho vivamente a leitura do artigo "Nos 75 anos do início da Segunda Guerra Mundial - Nunca mais!", do Gustavo Carneiro, publicado no Avante! da passada 5ª feira.]
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quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Relatório Minoritário.

O António Santos, com quem tenho o gosto de partilhar o Manifesto74 (o blogue, não confundir com o efémero documento já varrido para debaixo do tapete...), tem escrito uma série de importantes artigos para o Avante! sobre aspectos particulares da realidade política, económica, social e cultural dos Estados Unidos da América, onde viveu e trabalhou.

No Avante! desta semana, o António refere-se ao chamado Evidence-Based Sentencing, um sistema de condenação de cidadãos pobres que, apesar de ter "provas" ("evidências", na tradução literal) no nome, é na verdade uma sinistra transposição para a realidade norte-americana da condenação baseada em pré-cognições, o tema central do romance "Relatório Minoritário" (1956), de Philip K. Dick.

Escreve o António que o EBS consiste numa prática que permite às autoridades "prender os pobres pelos crimes que eles ainda não cometeram. (...) a EBS consiste em calibrar a sentença com base no valor atribuído ao risco de reincidência. Esse valor é extraído desapaixonadamente por um computador que opera uma obscura fórmula matemática com centenas de variáveis sócio-económicas como o desemprego, o estado civil, a zona de residência, o cadastro criminal de familiares, o nível de educação, as finanças pessoais, a propriedade e a idade". Qualquer semelhança com a "ficção-científica" de K. Dick não é pura coincidência.

O EBS assume-se assim como mais elemento caracterizador do verdadeiro monstro que é o colossal sistema prisional norte-americano. Os Estados Unidos da América são o país que, em proporção face à dimensão da sua população, mais detidos tem. Na sua grande maioria estes homens e mulheres são oriundos das chamadas "margens" da sociedade: trabalhadores pobres, desempregados e gente  que foi colocada à margem do "sonho americano", negros, hispânicos e brancos que funcionam como mão de obra quase gratuita num sistema penal privatizado, no seio do qual as grandes corporações (das tecnologias de informação ao armamento) encontram trabalho desprovido de direitos e de graça. Importa ter em conta que a 13ª emenda a Constituição norte-americana, documento sacro-santo por muitos considerado o fundador do moderno conceito de "democracia", continua a considerar a hipótese legal do trabalho escravo: "Section 1. Neither slavery nor involuntary servitude, except as a punishment for crime whereof the party shall have been duly convicted, shall exist within the United States, or any place subject to their jurisdiction. Section 2. Congress shall have power to enforce this article by appropriate legislation.".

O sonho americano é, na verdade, o pesadelo de uma maioria depauperada e oprimida pelo medo e a falsa sensação de permanente ameaça, num país com mais de 55 milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza. Para muitos destes a prisão é o destino mais certo. E o EBS existe precisamente para o garantir.

quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Index.

"Index" é uma das canções mais enigmáticas de "Grace For Drowning", segundo disco a solo de Steven Wilson. Já a ouvi, nas versões de estúdio e ao vivo, dezenas de vezes. Sei a letra de memória mas creio sinceramente que nunca a tinha compreendido até esta manhã, quando na viagem de comboio entre Algés e o Cais do Sodré passei os olhos pelas páginas 167 e 168 de "Entre os vândalos: o futebol e a violência", de Bill Buford.

Transcrevo:
"O nosso dia-a-dia consiste de padrões de conduta que nos mantêm intactos. O meu lugar numa sociedade civilizada, o meu lugar enquanto cidadão, deriva de um arranjo de acordos e rotinas. O meu dia-a-dia encontra-se fortemente padrozinado: acordo, mijo, como, (...). Tenho uma casa, um abrigo. Deixo-a de manhã e regresso ao fim da tarde: e ali está o meu abrigo, um dado material que não se limita a proporcionar-me tranquilidade; o facto de ser um espaço familiar reforça o meu eu. (...) Sou um coleccionador, um coleccionador básico e não um coleccionador refinado: as minhas fotografias, as minhas roupas, os meus móveis (dispostos de uma determinado maneira), a minha biblioteca (organizada de uma determinada maneira), os meus amigos e os meus entes queridos (organizados de uma determinada maneira), a ideia que tenho da minha vida,  de uma vida que se foi tornando amena e confortável devido a hábitos regulares, os meus jornais, o meu trabalho, a ideia que tenho de mim. Rodeio-me de coisas, apoio-me em adereços, encho o meu espaço de coisas: personalizo o meu espaço; torno-o íntimo; torno-o meu."

O texto continua. São duas páginas de auto acusatório ao homem resignado, quieto (ainda que se mova), padrozinado, metido - pela força do conformismo - dentro das fronteiras da matriz. Caramba, é disto que fala "Index". O tema é recorrente na obra de Steven Wilson, mas apenas esta manhã, ao ler um texto sobre a violência e a transgressão, encontrei a explicação detalhada e explicita da canção que não tinha ainda decifrado.

Para quem ainda não conhece, "Index", de Steven Wilson [versões de estúdio e ao vivo]:


Gabriel Medina.

Depois de vencer a etapa do Tahiti - a sua terceira vitória na Tour 2014, depois de Gold Coast e Fiji - Gabriel Medina representa uma real oportunidade do surf brasileiro conseguir um feito que desde há muito ambiciona: vencer o circuito WCT da ASP, desde sempre dominado por australianos, norte-americanos e hawaianos.




Faltam quatro etapas - incluindo a de Peniche, que se realiza entre 12 e 23 de Outubro próximo - , é certo, mas Medina está a surfar muito e leva quase 12.000 pontos de avanço sobre Slater. Conseguirá  manter a liderança do circuito?

O surf brasileiro é o mal amado de entre os países da primeira divisão do contexto mundial mas os bons resultados no WQS mostram que os surfistas brasileiros andavam desde há muito a ensaiar a gracinha no WCT. No que me diz respeito fico desde já a torcer por Medina. Mesmo que o seu surf, espectacular dentro do estilo, seja um pouco ao contrário daquilo que gosto de ver.

Quanto ao nossa "Saca" subiu quatro lugares no ranking e é 24º. Surfou muito e bem no Tahiti e espera-se que termine em beleza as quatro etapas em falta. Em pelo menos uma dela joga em casa e isso, para o bem e para o mal, poderá fazer a diferença.

Razões não faltam para continuar a acompanhar a presente edição do WCT.


[fotografia]

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

O Belenenses ainda vive.

O Parque de Campismo do Furadouro, localizado na praia homónima no concelho de Ovar, é ponto de encontro de muita gente do litoral norte do país. Diz-me quem lá vai há muitos e bons anos que aqueles que mais procuram o Furadouro vivem em torno da cidade do Porto. Muitas caravanas, que estão todo o ano no Parque, identificam através de bandeiras, toldos e até esculturas o clube de eleição da respectiva família. Há bandeiras do Sporting e do Benfica, e dragões pintados e esculpidos por todo o lado. Há também cachecóis pendurados onde o visitante os possa identificar.

Confesso que não vi nenhum do Belenenses, mas em conversa com um adepto benfiquista que ali vai passando os seus fins-de-semana confirmei aquilo que já sabia: que na zona entre Ovar e Aveiro há tradição belenense, muitos belenenses sofredores pelo clube do seu coração. Não me admira embora tema bem que não haja suficiente renovação de paixão clubística azul (sem riscas) naquela parte do país.

O Belenenses não é clube de ser "segundo clube". E apesar de ter nascido e crescido como verdadeiro clube de bairro, o mais puro representante do bairrismo desportivo saudável da cidade de Lisboa, ganhou por mérito próprio dimensão nacional. Creio não estar enganado a propósito de um estudo realizado há uns bons anos atrás, que reconhecia no Belenenses o quarto clube com mais adeptos em Portugal, com um número próximo dos 250 mil em todo o país.

Saber que o Belenenses é, ainda, um clube com sócios e adeptos fora da zona ocidental da cidade de Lisboa - o seu berço histórico - enche-me de uma alegria que vai muito além das vitórias e das derrotas desportivas. Não ignoro em todo o caso que as segundas - as derrotas - se têm sobreposto às primeiras - as vitórias - de forma avassaladora, e que num mundo que tem nos "resultados" o alfa e o ómega da sua atenção as paixões são contaminadas, quando não pulverizadas, pela ambição da identificação com o sucesso.

Creio sinceramente que o futuro do Belenenses passa sobretudo por renovar a sua base de apoio nos bairros ocidentais de Lisboa - Belém, Restelo, Ajuda, Alcântara, Junqueira... - e nas zonas limítrofes dos concelhos de Oeiras e Amadora. Fazê-lo requer recursos, esforço e alma. Dos três elementos creio que aquele que mais rareia no Estádio do Restelo é, por hora, o último.

Acredito igualmente que o Belém tem capacidade de recuperar o prestígio perdido, as filiais desligadas, os núcleos desactivados. O sangue do Belenenses não é o dinheiro do dono da SAD, nem as aparições periódicas - seguidas de eclipse total - dos seus notáveis (muitos dos quais puros "natas"...); é a dimensão popular, verdadeiramente popular e de certa forma subversiva, daqueles que persistem em dizer não à atracção fatal dos clubes do regime, mais o conjunto de emblemas municipalizados/regionalizados que, sem memória, confundem meia-dúzia de bons resultados com historial, prestígio e dimensão.

O Belenenses ainda vive.
Viva o Belenenses!

Bandas sonoras.

Gosto muito de ver vídeos de ondas surfadas. Ondas surfadas de pé ou deitado, com ou sem prancha. Gosto mesmo. Acontece que muitos dos melhores destes vídeos contêm excelentes bandas sonoras, músicas criteriosamente escolhidas para acompanhar imagens que andam entre o dantesco (estilo "The Wedge") e o maravilhoso (ver o vídeo que ontem publiquei, aqui no 10 mil insurectos...), e os menos habituados ao mar poderão por momentos esquecer que, quando estamos nas ondas, não há música alguma para lá daquela que a natureza nos proporciona.

No mar a banda sonora é a das ondas e do vento, das aves marinhas. Ocasionalmente, quando alguém quebra o silêncio respeitoso para lá da rebentação, vozes humanas. Música de outro tipo nunca ouvi. O mar proporciona a quem o ama a simplicidade absoluta, por vezes terrível. O mar é, de certa forma, uma Ode à Simplicidade.


quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

Among the Thugs

Este fulano que vos escreve nunca andou à tareia. Nunca levou pancada nem nunca deu pancada. Acho que é uma sorte que tenho, talvez alimentada por uma predisposição para me afastar de tudo o que me parece violência desnecessária e injustificada. Curiosamente sou fã de boxe (mas não de outros desportos de combate), que é uma coisa que não compreendo em mim.

Quando andava na faculdade e fui obrigado a seleccionar um tema para a monografia final de curso não hesitei e propus ao orientador um trabalho de campo em torno dos mecanismos psicológicos que caracterizam a relação de pertença dos membros das claques desportivas. A coisa soava a sociologia - e até antropologia - por todo o lado mas ciente disso acrescentei que se tratava de uma análise individualizada: propunha-me investigar quais os aspectos intra-individuais que estavam (estão...) na base da adesão dos membros das claques desportivas a estes grupos (que estão e são organizados, formal ou informalmente) com características tão particulares. Interessava-me sobretudo os rituais e os incidentes envolvendo violência (não raras vezes arbitrária) ocorridos dentro ou fora do grupo.

O professor abanou a cabeça e lá foi dizendo que me devia concentrar numa qualquer escala ou ideia de validação de instrumentos de investigação estrangeiros para o contexto português. Acabei por trabalhar mecanismos específicos do processo de negociação, em particular a elasticidade dos negociadores no que se refere às concessões.

A ideia de estudar as claques nunca me abandonou. Tal como uma investigação de fundo sobre o chamado "localismo" no contexto do surf e do bodyboard em Portugal. São ideias que estão na gaveta e que lá permanecerão certamente por muitos e bons anos. Seja como for vou lendo o que posso sobre o assunto, ou os assuntos.

Hoje iniciei "Entre os Vândalos - o Futebol e a Violência", de Bill Buford. O título original é "Among the Thugs: The Experience, and the Seduction, of Crowd Violence" e salvo melhor opinião dá-me ideia de "thug" é muito mais sinónimo de "rufia" do que de "vândalo".

O livro é interessante embora não seja propriamente uma investigação académica sobre o fenómeno. Também tem quase 25 anos (a primeira edição é de 1990) o que pode gerar algumas perplexidades a quem lê com os olhos de hoje sobre o que se passava naqueles loucos anos 70 e 80.

O tema interessa-me, pronto. Sobretudo porque, não sendo fã do futebol jogado (vejo o Belenenses, por amor à camisola, por vezes o St. Pauli, por amor à causa, e quase nada mais...), sou absoluto fã do futebol enquanto fenómeno associativo, de massas, eminentemente popular, subversivo.


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De resto foi interessante recordar a cara de espanto do professor-orientador quando lhe falei em claques desportivas.

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

"... a ciência é mais um modo de pensar do que um conjunto de conhecimentos"

Escreve Carl Sagan, no início do capítulo II da edição portuguesa de "O cérebro de Broca", que "a ciência é mais um modo de pensar do que um conjunto de conhecimentos". Tem toda a razão. Se a ciência fosse um amontoado de informação transitaria para o domínio religioso em menos de nada. Sendo antes um modo de pensar - não confundir com um receituário para a análise da realidade - a ciência renova-se permanentemente.

A leitura de "O cérebro de Broca" é na minha perspectiva fundamental no contexto em que vivemos, marcado pelo pré-conceito (o conceito a priori) e pela crença irracional e higienizada de dúvida e cepticismo. Basta compreender a forma como quase tudo o que se publica nos "media de referência" é imediatamente transposto para o discurso e o debate público como facto.

"O cérebro de Broca" deu cabo do meu fascínio pelos Dogon. Azar. A ciência não é um anti-depressivo destinado a aliviar o ser humano das fadigas do mundo louco que habita, não é uma forma colorida e academicamente legitimada de nos fazer sentir bem. Sagan explica-o de forma brilhante neste livro que dá luta, e que cria inquietação. Aconselho-o vivamente.