terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Offline.

Não se trata de um amuo. Nada disso. As motivações são totalmente diferentes daquelas que tive nas três ou quatro circunstâncias anteriores em que encerrei - "irrevogavelmente" ou não - este (e outros) blogue. Desta vez a coisa tem por base uma vontade positiva: dedicar mais tempo à vida fora das redes, dos bites&bytes. Esta coisa consome-me tempo que nada nem ninguém me pode devolver. E eu quero que os meus dias voltem a ter 24 horas, ou qualquer coisa parecida com isso.

O blogue vai à vida, e com ele a conta do Facebook. A minha (pessoal) e a dele (na dependência da minha). Esta decisão tem vantagens e desvantagens. Espero não me arrepender, mas se isso acontecer tenho bom remédio. De resto fica tudo online porque na verdade apagar dados é uma ilusão e nada do que aqui publiquei me envergonha. Fica para memória futura. Pode ser que aproveite a alguém.

Dois mil e quinze será ano de libertação tecnológica e eu sinto-me entusiasmado com a ideia.

Continuarei a usar o e-mail, naturalmente. O meu contacto está disponível no topo da barra à direita.

Continuarei também a editar o blogue que criei em memória do meu trisavô, António Gonçalves Correia, o blogue da Célia ("Os Novelos") e a minha galeria online de fotografia. No fundo, estes três blogues juntos somam menos de 1/10 do meu tempo "online". Continuarei também no Manifesto74, sobretudo por respeito ao compromisso assumido com os meus camaradas. Este é que se finou. Esticou o pernil. Bateu a bota. Paz à sua alma e descanso ao seu "autor".

A todos e todas: sejam felizes.
Desejo-vos um feliz 2015, com saúde, mente aberta e menos horas em frente a ecrãs.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Os anos vão passando.

Os anos vão passando e a triste situação dos ex-mineiros da Urgeiriça mantém-se no fundamental por resolver. Em Dezembro de 2013 o caso voltou a merecer a atenção dos media, apenas para mergulhar no esquecimento mediático-popular durante doze meses. Os ex-mineiros e suas famílias estão cansados e não pedem mais do que aquilo que lhes é devido. O problema é que a grande troika-nacional empurra com a barriga, e não obstante bonitos discursos de circunstância, vazias declarações de solidariedade com os ex-mineiros, PS-PSD-CDS não têm real intenção de dar resposta às reivindicações daqueles que trabalharam nas mais penosas condições, e que depois de mastigados foram cuspidos sem a atenção que é de justiça garantir-lhes.

Há poucos vi num noticiário televisivo uma peça sobre este caso. Nele se lançava lama por igual sobre todos os partidos com representação parlamentar. É por isso necessário passar a palavra, esclarecer os mais desinformados e afirmar, sem quaisquer hesitações, que há quem esteja, também no parlamento, ao lados dos ex-mineiros e respectivas famílias.




[fotografia: Carla Carvalho Tomás]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ler.

Comprei a última edição da Ler por causa de "A carta sobre a Censura", do Kurt Vonnegut (que aqui podem ler na língua original). O texto, por si só, teria compensado a nota que dei pela Ler, mas este número contém outros motivos de interesse que me aliviam a irritação de vinte e tal páginas de "posts" estilo blogue impressos em papel da autoria de Francisco José Viegas e Bruno Vieira Amaral.

A entrevista a António Lobo Antunes, por exemplo, é um documento notável que poderia muito bem ser motivo de estudo/debate nas nossa escolas secundárias. Creio que faria mais pela literatura, pela ligação dos miúdos à leitura e à escrita, do que os maçudos textos que fui obrigado a ler quando tinha 16 ou 17 anos (refiro-me por exemplo ao livro "A sibila", que poderia muito bem ter sido o princípio do fim da minha relação com os livros e com os autores portugueses da geração de Agostina Bessa Luís).

A não perder.


Nadadores [#3]



[Brighton Swimming Club, 1863. fotografia]

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Não se perdeu tudo...

Ontem vi a repetição do programa "Autores Fora de Horas", na SICn. O Afonso Cruz foi um dos convidados e isso, por si só, foi motivo capaz de me motivar para derreter algum do meu pouco tempo livre em frente à televisão.

Não sou habitual espectador do programa, e creio que não voltarei a vê-lo. Miguel Ribeiro não me pareceu à altura da intenção subjacente ao programa. Centrar uma conversa com o Afonso Cruz em lugares-comuns tão estafados como o tema da cerveja artesanal que o próprio produz, a sua vida no Alto Alentejo, as complementaridades entre ilustração, literatura e música, ou as viagens do início da sua vida adulta parece-me manifestamente pouco. Já foi perguntado e respondido uma série de vezes.

Seja como for não se perdeu tudo. Ouvi da boca do próprio autor que há um novo romance em perspectiva. Trata-se de uma excelente notícia para quem, como eu, segue com atenção o trabalho do Afonso Cruz.




[imagem]

Feliz Natal.




[Banksy]

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

domingo, 21 de dezembro de 2014

O cemitério como lugar de perpetuação da vida através da memória.

Os cemitérios são lugares carregados de memória, simbólica, silêncio, pedra e ciprestes. Tudo neles me atrai, incluindo a sua dimensão fronteiriça, como espaços de simultânea separação e ligação entre os mortos, os vivos e aqueles que, não existindo ainda, um dia passarão pelos jazigos e suas lápides.


O milagre da multiplicação dos Cristos, no cemitério dos Prazeres.


Ontem passei a tarde no Cemitério dos Prazeres, por ventura o mais belos dos cemitérios lisboetas. Não fui a nenhum funeral, as minhas motivações eram bem diferentes. Fui "passear", de máquina fotográfica em punho, concretizando um desejo antigo de visitar com tempo uma das maiores necrópoles da cidade, lugar que - para os mais interessados pelas disciplinas interligadas que encontram nos cemitérios campos de estudo férteis - poderá levar uma vida inteira a conhecer.

Já conhecia alguns dos túmulos/jazigos mais célebres dos Prazeres. O da família Carvalho Monteiro (a da Regaleira de Sintra), por exemplo. Ou o belíssimo jazigo de Elise Hensler, a Condessa d'Edla, segunda esposa de D. Fernando II. Outros, onde repousam os restos mortais de outros Homens - uns bem conhecidos, outros absolutos anónimos nos dias que correm - fiquei a conhecer.


Pormenor do túmulo da família Carvalho Monteiro.


Os cemitérios são portas que dão acesso à memória de pessoas, famílias, acontecimentos, acidentes e incidentes.

O túmulo do marinheiro James Campbell Landsman (embarcado no USS Alaska), por exemplo, falecido em Lisboa a 22 de Dezembro de 1875, e que por iniciativa dos seus camaradas de bordo por cá ficou, permitiu-me procurar informação sobre o seu navio, por onde andou, que missão cumpria. A passagem do navio de guerra norte-americano por Lisboa parece ter sido uma escala na viagem que o levou até à Libéria, onde participou ao lado das tropas liberianas contra o povo Grebo.


Lápide em memória de James Campbell Landsman.


Um outro, levantado para acolher os restos mortais da "innocente" Amélia Augusta Monteiro (12.05.1841-16.02.1844), seria utilizado por familiares seus posteriormente falecidos - um dos quais já durante o século XXI -, incluindo o "exímio publicista" Silvestre Pinheiro Ferreira, seu tio. Na lápide que assinala a morte do publicista, quem a redigiu refere que o enterrado ali permanecerá até que "a sua Pátria, que tantou honrou e ilustrou" lhe levante "o monumento que lhe é devido". Silvestre Pinheiro Ferreira seria transladado pouco tempo depois para outro jazigo no mesmo cemitério.


Túmulo de Amélia Augusta Monteiro e seus familiares.


Os túmulos imponentes, os maçónicos, aqueles ilustrados por símbolos profissionais ou militares, os túmulos identificados através de heráldica familiar ancentral, são atractivos de um cemitério onde apesar de tudo me cruzei com turistas estrangeiros em busca de esquadros e compassos, colossais cúpulas ou bizarrias próprias de um lugar onde a nobreza decandente e a burguesia pujante da cidade competia por um pedaço de terra. Muitos dos mais belos jazigos encontram-se todavia abandonados, facto ao qual aludem placas metálicas neles colocadas. A relação dos vivos com a morte (e com os mortos) mudou tanto...


Jazigo abandonado ("a conjugação de três factores pode levar a que um jazigo seja considerado abandonado: que nos últimos 15 anos não tenha havido qualquer movimento mortuário, não tenham sido realizadas as obras de beneficiação obrigatórias e não tenha sido registado qualquer averbamento, que actualize a sua tutela", fonte)


Voltarei aos Prazeres num futuro próximo. Quero fotografar os mais diversos aspectos da arte e da memória, daquilo que se vê ou simplesmente sente no lugar do respeitoso silêncio apenas perturbado pela vida fervilhante da cidade lá fora. Desses regressos darei notícia neste 10 mil insurrectos.


Aspecto de uma rua na parte sul do cemitério.


[mais fotografias aqui]
[continua]

sábado, 20 de dezembro de 2014

2014. [i]

Trabalhei que nem um cão. Nunca tinha trabalhado tanto na minha vida.

O Henrique abriu as comportas das palavras. A Catarina ficou ainda mais linda. Eu tornei-me ainda mais marreco e rabugento. A Célia teve paciência infinita para mim.

Li muito e gostei de quase tudo aquilo que li. "O cultivo de flores de plástico", do Afonso Cruz, foi o meu livro do ano (embora não sabia bem se é um livro do ano). Também ouvi muita música. (post)Prog com fartura, claro. Redescobri o Jazz - em parte graças à SMUP - sobretudo aquele mais macio ao qual chamam "cool". Neste final de ano andei pelos clássicos dos meus tempos de miúdo. Os Dire Straits e os Pink Floyd andam a "girar" durante as minhas longas jornadas de trabalho.

Trabalhei que nem um cão. Nunca tinha trabalhado tanto na minha vida.

O Nuno Dias deixou-nos. Não via o Nuno há alguns anos. Não falávamos há muitos. Mas o Nuno "é da minha criação", nadámos juntos nos melhores anos da minha vida, no nosso Algés. Para mim era um exemplo, provavelmente o melhor de entre nós. A notícia da sua morte marcará em definitivo a visão que tenho deste ano de 2014.

Regressei a Algés e ao Algés. Depois de oito anos em Almada, depois de ter regressado à minha terra há cerca de quatro anos, apenas durante estes últimos meses de 2014 redescobri Algés. Passámos a frequentar a baixa da Vila, a recorrer ao comércio de rua sempre que necessário. Às vezes vou passear por Algés só porque sim. Voltei a sentir amor pela minha terra.

Redescobri a fotografia, criei um blogue para as minhas experiências, voltei a acompanhar o que se vai fazendo por aí. Há tanta coisa maravilhosa para descobrir...

Trabalhei que nem um cão. Nunca tinha trabalhado tanto na minha vida.

2014 foi um ano tramado. Tramado mesmo. Creio em todo o caso que soubemos fazer dele um "lugar" menos mau, cada um no seu contexto, cada qual na sua "quinta" de influência. Cá em casa cultiva-se o altruísmo.

Que 2015 venha com melhor disposição e com a promessa de saúde para todos. De resto o futuro a Deus nós  pertence. Basta querer tomá-lo nas nossas mãos.

Feliz Natal.
Bom ano para (quase) todos.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

"Aqui no se rinde nadie"

Em 1999 estive quase um mês em Cuba. Fui integrado numa brigada de solidariedade e trabalho que incluía, para além de jovens portugueses, outros camaradas alemães e gregos. Foi muito provavelmente a mais marcante experiência que vivi no contacto directo com outros povos, uma viagem que não esquecerei jamais.

O objectivo da brigada era participar na construção da unidade de saúde da Universidad Camilo Cienfuegos, em Matanzas, um lugar onde estudavam e estudam não apenas jovens cubanos mas também outros provenientes da América Latina e África. Em Matanzas encontrei-me com angolanos, e vivi na primeira pessoa a ligação que os cubanos mantêm com Angola. Não por ser angolano - nunca estive sequer em África - mas porque certa noite participei numa festa de um CDR trazendo vestida uma t-shirt alusiva aos 40 anos do MPLA. Outros tempos, outra Angola.

Durante o tempo que estive em Cuba pude observar as graves dificuldades enfrentadas pelo povo cubano. Em 1999 já se notavam melhorias acentuadas face aos anos do terrível "período especial" - aquele que se seguiu ao fim da URSS e do bloco socialista do leste europeu - mas as consequências das quebra abrupta do apoio soviético a Cuba faziam-se sentir de forma absolutamente evidente. Nunca falei com alguém que o negasse. Todos os (muitos) cubanos com quem contactei mostravam consciência das dificuldades e um surpreendente espírito crítico e autocrítico relativamente à excessiva dependência do país face a uma nação amiga que de súbito havia desaparecido.

Por outro lado, as consequências do bloqueio estavam à vista de todos. A Cuba de 1999 havia sobrevivido a décadas de bloqueio económico imperial à custa de muito sofrimento e de privações impressionantes enfrentadas de peito aberto pela maioria de um povo orgulhoso na sua Revolução. Por todo o lado li (e sobretudo ouvi) a insígnia "aqui no se rinde nadie". Aqui ninguém se rende. Noutras parte li (e ouvi ) "Si, se puede". Um grito de afirmação positiva da pujança do socialismo cubano lançado muito antes do "Yes we can" de Obama.

Ontem, ouvindo as notícias sobre a possibilidade do fim do bloqueio, sobre a libertação dos cinco heróis cubanos há longos anos prisioneiros do Império, lembrei-me da Cuba que vivi em 1999. Lembrei-me dos camaradas da Brigada de Construção V Congresso do PCC, lembrei-me do director da Universidad de Matanzas Camilo Cienfuegos. Lembrei-me da imensa generosidade que vi (e vivi) em Matanzas, Havana e Santa Clara. E lembrei-me do José Casanova.

Não sei que implicações futuras poderá ter o atenuar do bloqueio para o povo cubano. Mas sei que o facto de Obama ter admitido o fracasso da política genocida do bloqueio total à ilha revolucionária é o maior atestado de vitalidade e força que a Revolução Cubana poderia receber nesta fase do desenvolvimento histórico do processo que ali se vai construindo todos os dias. O gigante ianque tentou vergar Cuba pela fome. Cuba respondeu com o maior nível de desenvolvimento humano PNUD da América Latina, sendo hoje território livre de subnutrição infantil segundo a UNESCO (Portugal não se pode orgulhar do mesmo). O gigante ianque procurou cercar a ilha, impedi-la de estabelecer relações de amizade com outros países. Cuba respondeu diversificando países parceiros. O gigante ianque conspirou durante o "período especial", julgou poder aproveitar em benefício próprio a Crise dos Balseiros. Cuba respondeu resolvendo as imensas dificuldades de 1992, 1993, 1994 e 1995, aprofundando a Revolução. Quem vergou foi o gigante.

Que o bloqueio se vá, que Cuba beneficie da abertura do cerco para dar ao seu povo aquilo que, por razões alheias à sua vontade, não conseguiu dar nos longos anos da asfixia económica imposta de fora para dentro.