domingo, 21 de dezembro de 2014

O cemitério como lugar de perpetuação da vida através da memória.

Os cemitérios são lugares carregados de memória, simbólica, silêncio, pedra e ciprestes. Tudo neles me atrai, incluindo a sua dimensão fronteiriça, como espaços de simultânea separação e ligação entre os mortos, os vivos e aqueles que, não existindo ainda, um dia passarão pelos jazigos e suas lápides.


O milagre da multiplicação dos Cristos, no cemitério dos Prazeres.


Ontem passei a tarde no Cemitério dos Prazeres, por ventura o mais belos dos cemitérios lisboetas. Não fui a nenhum funeral, as minhas motivações eram bem diferentes. Fui "passear", de máquina fotográfica em punho, concretizando um desejo antigo de visitar com tempo uma das maiores necrópoles da cidade, lugar que - para os mais interessados pelas disciplinas interligadas que encontram nos cemitérios campos de estudo férteis - poderá levar uma vida inteira a conhecer.

Já conhecia alguns dos túmulos/jazigos mais célebres dos Prazeres. O da família Carvalho Monteiro (a da Regaleira de Sintra), por exemplo. Ou o belíssimo jazigo de Elise Hensler, a Condessa d'Edla, segunda esposa de D. Fernando II. Outros, onde repousam os restos mortais de outros Homens - uns bem conhecidos, outros absolutos anónimos nos dias que correm - fiquei a conhecer.


Pormenor do túmulo da família Carvalho Monteiro.


Os cemitérios são portas que dão acesso à memória de pessoas, famílias, acontecimentos, acidentes e incidentes.

O túmulo do marinheiro James Campbell Landsman (embarcado no USS Alaska), por exemplo, falecido em Lisboa a 22 de Dezembro de 1875, e que por iniciativa dos seus camaradas de bordo por cá ficou, permitiu-me procurar informação sobre o seu navio, por onde andou, que missão cumpria. A passagem do navio de guerra norte-americano por Lisboa parece ter sido uma escala na viagem que o levou até à Libéria, onde participou ao lado das tropas liberianas contra o povo Grebo.


Lápide em memória de James Campbell Landsman.


Um outro, levantado para acolher os restos mortais da "innocente" Amélia Augusta Monteiro (12.05.1841-16.02.1844), seria utilizado por familiares seus posteriormente falecidos - um dos quais já durante o século XXI -, incluindo o "exímio publicista" Silvestre Pinheiro Ferreira, seu tio. Na lápide que assinala a morte do publicista, quem a redigiu refere que o enterrado ali permanecerá até que "a sua Pátria, que tantou honrou e ilustrou" lhe levante "o monumento que lhe é devido". Silvestre Pinheiro Ferreira seria transladado pouco tempo depois para outro jazigo no mesmo cemitério.


Túmulo de Amélia Augusta Monteiro e seus familiares.


Os túmulos imponentes, os maçónicos, aqueles ilustrados por símbolos profissionais ou militares, os túmulos identificados através de heráldica familiar ancentral, são atractivos de um cemitério onde apesar de tudo me cruzei com turistas estrangeiros em busca de esquadros e compassos, colossais cúpulas ou bizarrias próprias de um lugar onde a nobreza decandente e a burguesia pujante da cidade competia por um pedaço de terra. Muitos dos mais belos jazigos encontram-se todavia abandonados, facto ao qual aludem placas metálicas neles colocadas. A relação dos vivos com a morte (e com os mortos) mudou tanto...


Jazigo abandonado ("a conjugação de três factores pode levar a que um jazigo seja considerado abandonado: que nos últimos 15 anos não tenha havido qualquer movimento mortuário, não tenham sido realizadas as obras de beneficiação obrigatórias e não tenha sido registado qualquer averbamento, que actualize a sua tutela", fonte)


Voltarei aos Prazeres num futuro próximo. Quero fotografar os mais diversos aspectos da arte e da memória, daquilo que se vê ou simplesmente sente no lugar do respeitoso silêncio apenas perturbado pela vida fervilhante da cidade lá fora. Desses regressos darei notícia neste 10 mil insurrectos.


Aspecto de uma rua na parte sul do cemitério.


[mais fotografias aqui]
[continua]

sábado, 20 de dezembro de 2014

2014. [i]

Trabalhei que nem um cão. Nunca tinha trabalhado tanto na minha vida.

O Henrique abriu as comportas das palavras. A Catarina ficou ainda mais linda. Eu tornei-me ainda mais marreco e rabugento. A Célia teve paciência infinita para mim.

Li muito e gostei de quase tudo aquilo que li. "O cultivo das flores de plástico", do Afonso Cruz, foi o meu livro do ano (embora não sabia bem se é um livro do ano). Também ouvi muita música. (post)Prog com fartura, claro. Redescobri o Jazz - em parte graças à SMUP - sobretudo aquele mais macio ao qual chamam "cool". Neste final de ano andei pelos clássicos dos meus tempos de miúdo. Os Dire Straits e os Pink Floyd andam a "girar" durante as minhas longas jornadas de trabalho.

Trabalhei que nem um cão. Nunca tinha trabalhado tanto na minha vida.

O Nuno Dias deixou-nos. Não via o Nuno há alguns anos. Não falávamos há muitos. Mas o Nuno "é da minha criação", nadámos juntos nos melhores anos da minha vida, no nosso Algés. Para mim era um exemplo, provavelmente o melhor de entre nós. A notícia da sua morte marcará em definitivo a visão que tenho deste ano de 2014.

Regressei a Algés e ao Algés. Depois de oito anos em Almada, depois de ter regressado à minha terra há cerca de quatro anos, apenas durante estes últimos meses de 2014 redescobri Algés. Passámos a frequentar a baixa da Vila, a recorrer ao comércio de rua sempre que necessário. Às vezes vou passear por Algés só porque sim. Voltei a sentir amor pela minha terra.

Redescobri a fotografia, criei um blogue para as minhas experiências, voltei a acompanhar o que se vai fazendo por aí. Há tanta coisa maravilhosa para descobrir...

Trabalhei que nem um cão. Nunca tinha trabalhado tanto na minha vida.

2014 foi um ano tramado. Tramado mesmo. Creio em todo o caso que soubemos fazer dele um "lugar" menos mau, cada um no seu contexto, cada qual na sua "quinta" de influência. Cá em casa cultiva-se o altruísmo.

Que 2015 venha com melhor disposição e com a promessa de saúde para todos. De resto o futuro a Deus nós  pertence. Basta querer tomá-lo nas nossas mãos.

Feliz Natal.
Bom ano para (quase) todos.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

"Aqui no se rinde nadie"

Em 1999 estive quase um mês em Cuba. Fui integrado numa brigada de solidariedade e trabalho que incluía, para além de jovens portugueses, outros camaradas alemães e gregos. Foi muito provavelmente a mais marcante experiência que vivi no contacto directo com outros povos, uma viagem que não esquecerei jamais.

O objectivo da brigada era participar na construção da unidade de saúde da Universidad Camilo Cienfuegos, em Matanzas, um lugar onde estudavam e estudam não apenas jovens cubanos mas também outros provenientes da América Latina e África. Em Matanzas encontrei-me com angolanos, e vivi na primeira pessoa a ligação que os cubanos mantêm com Angola. Não por ser angolano - nunca estive sequer em África - mas porque certa noite participei numa festa de um CDR trazendo vestida uma t-shirt alusiva aos 40 anos do MPLA. Outros tempos, outra Angola.

Durante o tempo que estive em Cuba pude observar as graves dificuldades enfrentadas pelo povo cubano. Em 1999 já se notavam melhorias acentuadas face aos anos do terrível "período especial" - aquele que se seguiu ao fim da URSS e do bloco socialista do leste europeu - mas as consequências das quebra abrupta do apoio soviético a Cuba faziam-se sentir de forma absolutamente evidente. Nunca falei com alguém que o negasse. Todos os (muitos) cubanos com quem contactei mostravam consciência das dificuldades e um surpreendente espírito crítico e autocrítico relativamente à excessiva dependência do país face a uma nação amiga que de súbito havia desaparecido.

Por outro lado, as consequências do bloqueio estavam à vista de todos. A Cuba de 1999 havia sobrevivido a décadas de bloqueio económico imperial à custa de muito sofrimento e de privações impressionantes enfrentadas de peito aberto pela maioria de um povo orgulhoso na sua Revolução. Por todo o lado li (e sobretudo ouvi) a insígnia "aqui no se rinde nadie". Aqui ninguém se rende. Noutras parte li (e ouvi ) "Si, se puede". Um grito de afirmação positiva da pujança do socialismo cubano lançado muito antes do "Yes we can" de Obama.

Ontem, ouvindo as notícias sobre a possibilidade do fim do bloqueio, sobre a libertação dos cinco heróis cubanos há longos anos prisioneiros do Império, lembrei-me da Cuba que vivi em 1999. Lembrei-me dos camaradas da Brigada de Construção V Congresso do PCC, lembrei-me do director da Universidad de Matanzas Camilo Cienfuegos. Lembrei-me da imensa generosidade que vi (e vivi) em Matanzas, Havana e Santa Clara. E lembrei-me do José Casanova.

Não sei que implicações futuras poderá ter o atenuar do bloqueio para o povo cubano. Mas sei que o facto de Obama ter admitido o fracasso da política genocida do bloqueio total à ilha revolucionária é o maior atestado de vitalidade e força que a Revolução Cubana poderia receber nesta fase do desenvolvimento histórico do processo que ali se vai construindo todos os dias. O gigante ianque tentou vergar Cuba pela fome. Cuba respondeu com o maior nível de desenvolvimento humano PNUD da América Latina, sendo hoje território livre de subnutrição infantil segundo a UNESCO (Portugal não se pode orgulhar do mesmo). O gigante ianque procurou cercar a ilha, impedi-la de estabelecer relações de amizade com outros países. Cuba respondeu diversificando países parceiros. O gigante ianque conspirou durante o "período especial", julgou poder aproveitar em benefício próprio a Crise dos Balseiros. Cuba respondeu resolvendo as imensas dificuldades de 1992, 1993, 1994 e 1995, aprofundando a Revolução. Quem vergou foi o gigante.

Que o bloqueio se vá, que Cuba beneficie da abertura do cerco para dar ao seu povo aquilo que, por razões alheias à sua vontade, não conseguiu dar nos longos anos da asfixia económica imposta de fora para dentro.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Depois de amanhã [chega o terceiro filme a propósito do grande romance "O Hobbit", de JRR Tolkien].



[resta-me escrever "obrigado, Peter Jackson"]

"Spooks"

Em "The Human Stain" de Philip Roth – traduzido para "A mancha humana" nas edições portuguesas – a palavra "spook" [1] marca de forma profunda o final da vida do personagem principal da história, Coleman Silk. Ao utilizá-la durante a chamada de alunos no início de uma aula sua na Universidade de Athena, onde ensina literatura clássica, Coleman desencadeia um conjunto de acontecimentos que transformarão por completa o seu dia-a-dia. Um desses acontecimentos, que Coleman afirma estar relacionado com a injusta acusação de racismo que o afasta da Universidade, é a súbita morte da sua mulher.

"The Human Stain" é um livro que versa uma série de assuntos aparentemente desligados entre si, mas que convida a reflexões necessárias. Uma dessas reflexões diz respeito à forma como tomamos por certa a percepção que temos dos outros: sobre aquilo que dizem e fazem, ou para ser mais rigorosa, sobre a forma como percepcionamos e interpretamos aquilo que dizem e fazem. A psicologia estuda de forma aprofundada esse elemento indesmentível – temo bem que seja de facto indesmentível – caracterizador da relação entre aquele que percepciona e o percepcionado: existirão sempre diferenças (maiores ou menores) entre a percepção que temos de algo ou alguém, e a realidade intrínseca e essencial desse mesmo algo ou alguém. Deste desfasamento nascem por vezes enormes problemas, grandes confrontações, desvios irreversíveis na relação entre pessoas.

Ao utilizar a subjectiva (porque portadora de vários sentidos) palavra "spooks" durante a chamada a alunos seus, a propósito de duas alunas que por estarem sempre ausentes da sala de aula se assemelhavam neste contexto concreto a fantasmas ou espectros, Coleman abre a porta às mais delirantes interpretações sobre a sua intenção original. A falta de sintonia entre aquelas (interpretações) e esta (intenção) produz um violento e marcante desvio irreversível no curso da sua vida, que parece mais tarde secundarizado pelas consequências que um novo quadro de relações determinará.

Todos somos "spooks" aos olhos dos outros. Sobretudo porque ninguém é verdadeiramente capaz de captar plenamente aquilo que somos, as intenções que temos, as acções que desenvolvemos. Ainda que pensemos – os outros relativamente a nós, nós relativamente aos outros – que sim.


Notas:
[1] "Spook" que tem duplo ou mesmo triplo sentido na língua original: fantasma/espectro, espião ou expressão racista relativa a afro-americanos negros.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Pipe Masters 2014

O título mundial de surf está em jogo no Pipe Masters 2014: Medina, Slater e Fanning, um deles será campeão. O campeonato tem transmissão online no site da ASP e asseguro que vale bem a pena acompanhar à distância as bombas que vão quebrando sobre a linha de recifes mais conhecida do mundo: Banzai Pipeline.

Tudo para acompanhar aqui.
#vaimedina
Força, Tiago!



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Brothers in Arms

No carro dos meus pais sempre se ouviu boa música. Pelo menos quando eu era passageiro regular era assim que acontecia. Synthpop dos 80's, muita música brasileira, rock português de qualidade e, claro está, os grandes Dire Straits. Tenho perfeita memória dos verões em que o caminho entre Espiche e a Praia da Luz, em Lagos, se fazia ao som de "Walk of life". E sinto saudades, claro.

O segundo disco que comprei na minha vida - na "Rosi", em Algés - foi precisamente a colectânea "Money for nothing" (de 1988). O disco inclui, como última faixa do lado B, "Brothers in Arms", um hino anti-violência que está sem qualquer sombra de dúvida nas minhas 10 canções favoritas de todos os tempos.

Hoje não me sai da cabeça. Sobretudo aquelas notas iniciais da guitarra de Mark Knofler.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A quem possa interessar...

A propósito de "notícias" hoje surgidas na imprensa do regime, a propósito de suposto donativo aprovado pelo BES à Festa do Avante!, aconselho a leitura integral da Nota do Gabinete de Imprensa do PCP sobre o assunto:

Nota do Gabinete de Imprensa do PCP
Sobre a notícia do «Público» a propósito do BES/Novo Banco e a Festa do «Avante!»
11 Dezembro 2014

A notícia hoje divulgada pelo jornal «Público» sobre alegados donativos do BES/Novo Banco à Festa do «Avante!» constitui uma peça para tentar atribuir ao PCP práticas e procedimentos que em absoluto rejeita. Face às insinuações subjacentes ao artigo o PCP esclarece que:

- A Festa do «Avante!» tem com o BES/Novo Banco uma relação comercial que tem como principal elemento a titularidade de uma conta bancária onde são depositadas e movimentadas as receitas da Festa, cujas vantagens para a referida entidade por si só justificaria que não acrescessem encargos para a Festa decorrentes de serviços associados, como o transporte de valores, a instalação de meios de pagamento automático, de realização de depósitos e de levantamento de dinheiro.

- É falso que a Festa do «Avante!» tenha solicitado ou obtido qualquer apoio ou donativo financeiro do BES/Novo Banco. A relação que a Festa do «Avante!» detém com o referido banco é estritamente de natureza comercial, como cliente que detém uma conta de importância significativa a que se associa a contratação dos serviços mencionados, nas condições apresentadas pela própria instituição. Sendo totalmente alheio à forma como essa entidade classifica a contabilização dos serviços contratados, o PCP rejeita e considera totalmente abusiva qualquer assumpção do conceito de donativo nesta relação comercial.

- É, aliás, de sublinhar que apesar da importância da conta que a Festa do «Avante!» tem no BES/Novo Banco, os serviços que lhe estão associados tenham representado um encargo para a Festa de mais de 20 mil euros no ano presente que serão inscritos como despesa nas contas, a enviar ao Tribunal Constitucional. Ao contrário do que é sugerido, na relação comercial com o BES/Novo Banco ou qualquer entidade a que a Festa do «Avante!» contrata serviços, são estas que efectivamente têm proveito na relação estabelecida.

Aos que não desistem de procurar envolver o PCP em práticas que hoje proliferam no País, o PCP não só repudia essas manobras como reafirma a sua absoluta independência face ao poder económico e a sua reconhecida atitude de honestidade e isenção que nenhuma operação mistificatória conseguirá pôr em causa.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Era uma vez uma boa ideia.

Sabe bem dar de caras com boas ideias, num mundo tomado por ideias tão precárias como as relações laborais, os equilíbrios ecológicos e até as relações humanas. Ontem, no Jardim da Estrela, encontrámos por entre artesanias de todos os formatos esta "Cidade de Cortiça", um jogo para todas as idades desenvolvido pela "Paralela".

O jogo - um género de tangram tridimensional, verdadeiro convite à exploração das possibilidades mais improváveis - é todo em cortiça portuguesa, claro está, a assume-se como uma alternativa de qualidade ao lixo de plástico que prolifera pelas lojas e nos anúncios de televisão que se repetem nesta altura do ano.

Trouxemos um, claro.
Eu sei que não é barato, mas cá em casa não se fuma, raramente se bebe e toda a (pouca) poupança que se faz - depois de pagas as contas - serve para aquilo que vale mesmo a pena.




[imagem]

sábado, 6 de dezembro de 2014

A (triste cruz da) Cruz do meu bairro II

Uma tristeza, a lamentável e enxovalhante aldrabice que hoje teve lugar no Estádio da Luz. Envergonha-me que o Belenenses seja parte de uma farsa que é uma página negra da sua história enquanto grande clube lisboeta que sempre resistiu ao abraço do urso dos dois eucaliptos da cidade. Lamento igualmente o silêncio da nova direcção do clube sobre a aldrabice negociada pela SAD. O Belenenses não é isto.